A campanha presidencial de 2026 começou no domingo, 16 de agosto, com os dois principais candidatos disputando as ruas em atos simbólicos e sob um conjunto ampliado de regras do Tribunal Superior Eleitoral para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, discursou no estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, palco das assembleias de metalúrgicos que ele liderou entre 1979 e o início de 1980. O senador Flávio Bolsonaro, seu principal adversário, reuniu apoiadores na avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, e falou de cima de um trio elétrico.
A cobertura de centro relatou que o primeiro dia teve ainda ato de Renan Santos no largo São Francisco, em São Paulo, carreata de Ronaldo Caiado por municípios de Goiás, discurso de Romeu Zema em Montes Claros e largada de Augusto Cury em Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte. Segundo o agregador de pesquisas citado nessa cobertura, em um eventual segundo turno Lula teria 46% e Flávio Bolsonaro, 43% das intenções de voto.
No ato petista, Lula apareceu de chapéu, explicando que fez radioterapia para tratar um câncer de pele, e leu no telão uma carta dirigida a si mesmo em 1979. Falou sobre terras raras, crime organizado, educação e violência contra a mulher, e homenageou a ex-mulher Marisa Letícia, morta em 2017. O palanque reuniu o vice-presidente Geraldo Alckmin, o candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad, a deputada federal Benedita da Silva, a primeira-dama Rosângela da Silva e as candidatas ao Senado por São Paulo Simone Tebet e Marina Silva. Flávio Bolsonaro cantou o hino nacional antes de discursar, homenageou o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso, e apareceu ao lado do candidato a vice Alfredo Gaspar.
Veículos de direita enfatizaram o conteúdo econômico do palanque governista e deram espaço à afirmação de Alckmin de que a política industrial do governo permitiu retomar a produção em fábricas fechadas na gestão anterior, com a GWM ocupando a antiga planta da Mercedes-Benz em Iracemápolis e a BYD instalada onde funcionava a Ford na Bahia, além dos acordos comerciais do Mercosul com Singapura, com a Associação Europeia de Livre Comércio e com a União Europeia. Nesse recorte, a disputa aparece como confronto de resultados de gestão e de credibilidade econômica.
Nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio no conjunto analisado. A leitura provável desse campo destacaria o simbolismo sindical do estádio Primeiro de Maio, a bandeira do fim da escala 6x1 e as novas regras eleitorais como proteção do eleitorado contra desinformação automatizada.
Sobre essas regras, a corte eleitoral manteve permitido o uso de inteligência artificial na propaganda, desde que haja aviso explícito e destacado sobre a tecnologia empregada, inclusive em material impresso. A resolução proíbe a circulação de conteúdo gerado por IA nas 72 horas anteriores à votação e nas 24 horas seguintes, veda que plataformas como ChatGPT e Gemini recomendem ou ranqueiem candidaturas, mesmo a pedido do usuário, e impede a produção de imagens de conteúdo sexual envolvendo candidatos. Juízes poderão inverter o ônus da prova quando for excessivamente oneroso ao autor comprovar a manipulação digital, ponto que dividiu os especialistas ouvidos: o diretor do Instituto Democracia em Xeque, Fabiano Garrido, considerou a medida um reconhecimento de assimetria técnica, enquanto o advogado eleitoral Guilherme Barcelos a classificou como incabível, por transferir ao réu o dever de demonstrar que o conteúdo não é manipulado. A resolução também proíbe pagar pessoas para publicar conteúdo político-eleitoral, prática associada ao concurso de cortes usado por Pablo Marçal em 2024, hoje inelegível até 2032, e amplia as hipóteses em que as plataformas devem remover material sem ordem judicial. O presidente do tribunal, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que o uso desordenado da tecnologia pode ameaçar o processo democrático.
Ainda não se sabe como o tribunal fiscalizará na prática as plataformas de inteligência artificial, nem qual será o resultado da reunião marcada para terça-feira, 18 de agosto, para tratar especificamente de deepfakes. Também não há detalhamento público sobre os critérios técnicos das perícias digitais previstas nos convênios com universidades.