O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou, na terça-feira (23 de junho de 2026), que suspeita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está 'ficando meio Biden'. A comparação faz referência ao ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden, que em 2024 desistiu de concorrer à reeleição após pressões de aliados e opositores que questionavam sua capacidade de permanecer no cargo. A fala ocorreu durante a cerimônia de abertura da Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne (Feicorte) 2026, em Presidente Prudente (SP), ao lado do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos).
No mesmo discurso, Flávio confirmou que irá aos Estados Unidos no dia 6 de julho para participar de uma audiência pública promovida pelo USTR, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, com o objetivo de defender as empresas brasileiras contra a nova taxa de 25% proposta pelo governo de Donald Trump. O senador sustentou que a iniciativa é necessária porque, segundo ele, o Brasil 'já tem as empresas mais taxadas do mundo' sob o atual governo, e prometeu que, a partir do ano que vem, o país terá um presidente disposto a sentar 'de igual para igual com todo o mundo para defender os interesses do povo'.
A cobertura de centro, como a do Poder360, relatou o episódio de forma factual, transcrevendo as falas entre aspas e contextualizando o calendário oficial: a audiência do USTR está marcada para 6 de julho e a decisão sobre a sobretaxa de 25%, para 15 de julho, ao fim das negociações entre Washington e Brasília. Essa cobertura também apresentou, com paridade, os números de uma pesquisa Genial/Quaest divulgada em 10 de junho, segundo a qual 47% dos entrevistados concordavam com a versão de Lula, de que Flávio teria atuado em favor das tarifas, enquanto 35% acreditavam na explicação do senador, que diz ter pedido a Trump que não aplicasse novas sobretaxas; 18% não souberam ou preferiram não responder.
Veículos de direita, como o InfoMoney, enfatizaram o ângulo da carga tributária e da livre iniciativa, dando centralidade à narrativa do pré-candidato como defensor das empresas brasileiras e crítico do peso dos impostos atribuído ao governo Lula. Já uma leitura de esquerda destaca outro ponto da mesma pesquisa: o fato de quase metade dos brasileiros responsabilizar o próprio Flávio pela ameaça tarifária, lendo a comparação com Biden como ataque pessoal que desvia o foco do impacto da sobretaxa sobre empregos, indústria e exportadores, e questionando se a aproximação do senador com Trump subordinou o interesse nacional a uma agenda externa.
O episódio ganhou peso político porque a medida tarifária foi anunciada pelos Estados Unidos no início de junho, cerca de uma semana depois de Flávio visitar Trump na Casa Branca, o que levou adversários a associarem o senador à proposta. Nos bastidores, interlocutores do Planalto demonstram pessimismo quanto ao êxito das reuniões, avaliando que Trump não tem sido claro sobre o tema e pode estar buscando uma vitória política em vez de um acordo efetivo.
O que ainda não se sabe é se a sobretaxa de 25% será de fato implementada após 15 de julho, já que sua aplicação não é automática, nem qual será o resultado concreto da audiência do USTR e das negociações entre os dois governos. Também permanece em aberto o efeito eleitoral da disputa de narrativas sobre quem é responsável pela ameaça às exportações brasileiras.