Emenda de R$ 200 mil de Flávio Bolsonaro foi pedida por miliciano do caso Marielle
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A Polícia Federal encontrou, no celular do miliciano Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, mensagens trocadas em 2023 e 2024 com Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar no gabinete do senador Flávio Bolsonaro. Nos diálogos, o miliciano pede a liberação de recursos e a assessora orienta o envio de ofício e o reforço pessoal do pedido ao senador. Dias depois, em novembro de 2023, uma emenda de quase R$ 200 mil foi destinada ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, o IFOP, por termo de fomento com o Ministério do Esporte, para o projeto Jogadores do Futuro, em Taquara, na zona oeste do Rio de Janeiro. A Polícia Federal vê indícios de desvio, e um relatório do Tribunal de Contas da União de 2025 apontou irregularidades na execução. O senador afirma que o repasse seguiu a legislação e os critérios técnicos do ministério.
Para a leitura à esquerda, o episódio expõe como dinheiro público desenhado para atender crianças de uma comunidade da zona oeste do Rio de Janeiro acabou circulando pelo mesmo território dominado pela milícia dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, condenados como mandantes do assassinato de Marielle Franco.
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Ponto cego: esse lado ficou de fora.
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Todas as coberturas confirmam os mesmos fatos: as mensagens entre Robson Calixto Fonseca e a secretária parlamentar Maria de Fátima Bezerra Castro existem e foram obtidas pela Polícia Federal; a emenda de quase R$ 200 mil saiu em novembro de 2023 para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio; e nenhum documento divulgado mostra contato direto do senador Flávio Bolsonaro com o miliciano.
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal mostram um miliciano condenado no caso Marielle Franco negociando com a secretária parlamentar do senador Flávio Bolsonaro a liberação de uma emenda de quase R$ 200 mil para um instituto no Rio de Janeiro. O Tribunal de Contas da União viu indícios de irregularidade na execução; o senador diz que o repasse seguiu a lei.
A Polícia Federal encontrou, no celular do miliciano Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, mensagens em que ele negocia com uma assessora do senador Flávio Bolsonaro a liberação de uma emenda parlamentar. Peixe foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão por participação no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018, e perdeu o cargo de policial militar reformado. Dias depois das conversas, em novembro de 2023, uma emenda de quase R$ 200 mil foi destinada ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, o IFOP, por meio de termo de fomento firmado com o Ministério do Esporte.
O dinheiro deveria financiar o projeto Jogadores do Futuro, voltado a crianças do bairro Taquara, na região de Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. É uma área de influência do ex-deputado federal Chiquinho Brazão e do ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro Domingos Brazão, condenados pelo Supremo Tribunal Federal como mandantes da morte de Marielle Franco. A Polícia Federal vê indícios de desvio dos recursos, e os diálogos integram uma investigação que tramita sob sigilo no Supremo sobre repasses a entidades ligadas aos dois irmãos, com emendas de vários parlamentares além da do senador.
O conteúdo das mensagens é o mesmo em todas as coberturas. Em 24 de outubro de 2023, Peixe escreveu à secretária parlamentar Maria de Fátima Bezerra Castro: "Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar". A assessora pediu que ele enviasse um ofício, perguntou quando ele iria a Brasília e, dois dias depois, questionou se ele ainda mantinha contato com Chiquinho Brazão. Diante da resposta afirmativa, mencionou uma cerimônia de entrega de coletes balísticos à Polícia Militar do Rio de Janeiro e orientou: "Vc vai tbm e já reforça o pedido com o senador". Em 6 de novembro, o miliciano insistiu: "não esquece do IFOP não, vê se o Senador consegue nos agraciar". A resposta da assessora foi "pode deixar". Em janeiro de 2024, ela pediu ao miliciano quatro ingressos para o desfile das campeãs no camarote Arpoador, no Sambódromo, solicitação que os investigadores classificaram como vantagem indevida.
A cobertura de centro concentrou-se na cadeia documental e no contraditório: reproduziu as transcrições com data, registrou o valor exato do repasse, detalhou o relatório técnico do Tribunal de Contas da União de 2025 e reservou espaço à resposta do senador, além de informar que procurou as defesas de todos os citados. Segundo esse relatório, o instituto contratou um escritório de advocacia para coordenar o projeto de treinamento esportivo, e o responsável pela empresa contratada era o próprio presidente da entidade que fez a contratação.
Veículos de esquerda deram outro peso ao mesmo material: enfatizaram a articulação da assessora para aproximar um condenado por integrar organização criminosa do gabinete de um senador, a proximidade entre o miliciano e Chiquinho Brazão no período e o fato de o dinheiro público ter ido para um instituto no território da milícia. Nessa leitura, o problema não é apenas a execução do contrato, e sim a permeabilidade das emendas parlamentares a grupos armados. Esses textos, porém, não trouxeram a defesa do parlamentar nem o valor da emenda. Já veículos de direita não deram destaque ao episódio: a cobertura identificada desse lado tratou de outros capítulos da campanha do senador, e o argumento que sustenta sua posição chegou ao público pela nota reproduzida nas demais matérias.
Essa nota é o contraponto formal. Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro e candidato à Presidência, afirmou que a destinação ocorreu dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte, que a entidade executora apresentou notas fiscais e devolveu valores não utilizados, e que a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades, diz o texto, devem ser apuradas pelos órgãos de controle.
O que ainda não se sabe é decisivo. Nenhum documento divulgado até agora mostra o senador tratando pessoalmente com o miliciano, e as mensagens analisadas não indicam quem usou os quatro ingressos de carnaval. Também não há informação pública sobre quanto do dinheiro foi efetivamente devolvido, sobre o desfecho do processo no Tribunal de Contas da União nem sobre prazo para a conclusão da investigação que corre em sigilo no Supremo Tribunal Federal.

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