O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, comparou nesta terça-feira o presidente Lula ao ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden, que desistiu de concorrer à reeleição durante a campanha americana. "Suspeito que Lula está ficando meio Biden", disse o senador na abertura da Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne, em São Paulo, ao lado do governador Tarcísio de Freitas. Na mesma fala, Flávio anunciou que viajará a Washington para, segundo ele, defender as empresas brasileiras diante da proposta de uma nova tarifa de 25% sobre produtos do Brasil, anunciada pelo governo de Donald Trump.
A cobertura de centro relatou os fatos de forma direta: a comparação com Biden, a viagem aos Estados Unidos e a audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos EUA, o USTR, marcada para 6 de julho, que reúne 85 inscritos entre pessoas físicas, empresas e confederações. Os veículos de centro também registraram o pano de fundo eleitoral. Uma pesquisa Genial/Quaest divulgada em 10 de junho mostrou que 47% dos brasileiros concordavam com a afirmação de Lula de que Flávio teria atuado junto a Trump em favor das novas tarifas. O governo brasileiro, segundo a mesma cobertura, tenta negociar com os Estados Unidos para evitar que as taxas entrem em vigor em 15 de julho, mas há pessimismo nos bastidores do Planalto sobre o êxito das reuniões.
Veículos de direita enfatizaram o conteúdo de campanha da declaração. Ao comparar Lula a Biden, o senador sugere desgaste e fim de ciclo do governo. A promessa de defender as empresas é apresentada como a ação de um futuro presidente que, nas palavras do próprio Flávio, "vai sentar de igual para igual com todo o mundo para defender os interesses do povo". Nessa leitura, ganha destaque a crítica à carga tributária, com o senador afirmando que o Brasil já tem "as maiores taxas do mundo" sob o atual governo. A mesma cobertura registrou que a pré-campanha de Flávio pediu investigação de gastos do governo Lula com publicidade, reforçando o ângulo de fiscalização do Executivo.
Veículos de esquerda destacaram a contradição na trajetória do senador. Em julho de 2025, quando ainda não era candidato, Flávio celebrou nas redes sociais o tarifaço de 50% imposto por Trump ao Brasil, com a frase "Obrigado, Trump. Faça o Brasil livre de novo". Agora, a três meses das eleições, promete ir a Washington para evitar novas sobretaxas. Para essa cobertura, trata-se de uma guinada com claro objetivo eleitoral, e a audiência técnica do USTR seria transformada em palanque. Colunistas de esquerda lembraram ainda que o tarifaço original teve caráter político, com a Casa Branca associando a ofensiva à tentativa de impedir o julgamento de Jair Bolsonaro por crimes contra a Constituição, entre eles a tentativa de golpe de Estado.
É nesse ponto que as coberturas mais divergem. A direita lê a iniciativa como defesa legítima e ativa do interesse nacional e como sinal de liderança forte na política externa. A esquerda lê a mesma iniciativa como oportunismo de quem antes comemorou o prejuízo econômico ao país. O centro se concentra nos elementos verificáveis: a data da audiência, os números da pesquisa e o estado da negociação entre os dois governos.
O que ainda não se sabe é o desfecho concreto da audiência de 6 de julho e se a viagem de Flávio terá algum efeito sobre a decisão final, que caberá a Trump e está prevista para a segunda quinzena de julho. Também não está claro se o governo brasileiro conseguirá evitar a entrada em vigor das tarifas em 15 de julho, nem qual será o percentual definitivo, já que estimativas citadas variam entre 25% e até 37%.