O senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, evitou dizer como votará no Senado a proposta que põe fim à escala de trabalho 6x1 e afirmou que apresentará um desenho alternativo, centrado na liberdade de cada trabalhador negociar a própria jornada. A declaração foi dada em entrevista a um programa dominical de televisão exibida em 30 de agosto de 2026. Segundo o senador, os direitos trabalhistas previstos na Constituição seriam mantidos, mas cada pessoa montaria a própria escala em acordo com o empregador.
A proposta de emenda à Constituição em discussão prevê redução progressiva da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e dois dias de repouso remunerado, e é uma das principais bandeiras da campanha à reeleição do presidente Lula. Aprovada na Câmara dos Deputados no primeiro semestre, ficou travada no Senado até a reunião de 26 de agosto entre o presidente da República e os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. No dia seguinte, o relator Omar Aziz divulgou parecer que mantém o texto vindo da Câmara, cálculo que evita o retorno da matéria àquela Casa e preserva a chance de promulgação antes da eleição. A oposição protocolou 14 emendas: uma delas mantém as 44 horas semanais na Constituição e transfere eventual redução para negociação coletiva ou contrato por hora, modelo próximo ao defendido pelo senador. A bancada bolsonarista também apresentou proposta de um regime de pagamento por hora trabalhada.
Toda a cobertura converge em três pontos. O candidato não cravou o voto, defende uma alternativa de jornada negociada e sustenta que pedidos recentes de recuperação judicial no varejo e na alimentação indicam um ambiente hostil à criação de empregos. Há convergência também sobre o calendário: a matéria pode ir a plenário nos próximos dias.
As ênfases mudam conforme o campo editorial. Veículos de esquerda destacaram a esquiva sobre o voto e o contraste entre o discurso de liberdade e uma pauta que reduz jornada sem cortar salário, tratando a proposta alternativa como flexibilização de um limite hoje protegido pela Constituição. A cobertura de centro seguiu por duas trilhas: uma detalhou a tramitação e cobrou a prestação de contas prometida sobre o financiamento privado do filme a respeito do ex-presidente Jair Bolsonaro, registrando que o senador repetiu respostas já dadas em outras entrevistas; outra abriu espaço maior ao programa econômico e de segurança, com ajuste fiscal, uso de inteligência artificial no controle de gastos públicos, mais de mil atos normativos no primeiro dia de governo e a promessa de classificar o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho e as milícias como organizações terroristas. Veículos de direita não cobriram o episódio no conjunto analisado, e o argumento que costuma organizar esse campo aparece na própria fala do entrevistado: contrato livre entre as partes e crítica ao custo regulatório do emprego.
O senador tratou ainda do Supremo Tribunal Federal. Disse que o próximo presidente poderá indicar ao menos quatro ministros, contando a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, ainda não preenchida depois de o Senado rejeitar o nome de Jorge Messias, e afirmou que escolheria homens e mulheres contrários ao aborto e às drogas. Sobre o pai, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e hoje em prisão domiciliar, afirmou que trabalhará pela anistia dos envolvidos no 8 de janeiro e, se não houver tempo, concederá indulto aos condenados.
O que ainda não se sabe é como o senador votará caso a proposta vá a plenário, qual é o texto exato da alternativa que promete apresentar, se a votação ocorre de fato nesta semana e se alguma das emendas da oposição será acolhida. Segue em aberto também o detalhamento dos repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro à produção do filme e os nomes que o candidato levaria ao Supremo Tribunal Federal.