A pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) foi sacudida por uma crise familiar que veio a público no fim de junho de 2026. Em 24 de junho, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou vídeos nos quais acusa o enteado de tê-la tratado com rispidez, desrespeito e humilhação em uma ligação telefônica. O estopim, segundo ela, foi sua crítica à aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB) no Ceará. Michelle relatou que Flávio teria dito que ela 'havia chegado ontem' na política e que seria melhor ficar fora das decisões partidárias.
As acusações não pararam no episódio do telefonema. Michelle, que preside o PL Mulher, afirmou que Flávio e o coordenador de campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN), trabalharam para vetar três indicações femininas: a senadora Carol De Toni, a deputada Bia Kicis e a prefeita Priscila Costa. Pela regra de cota de 30%, ela sustenta que o partido teria direito a dezessete vagas femininas, e o bloqueio revelaria, em suas palavras, machismo e autoritarismo dentro da própria cúpula.
A reação dentro do PL foi de surpresa, seguida de cautela. Aliados do senador passaram a apostar no anúncio de uma vice mulher, em até duas semanas, como forma de conter perdas no eleitorado feminino e evangélico, dois segmentos onde a pré-campanha já vinha em queda. Entre as cotadas aparecem as deputadas Julia Zanatta e Bia Kicis, a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e a deputada Simone Marquetto. Integrantes da federação PP-União Brasil afirmaram que as críticas de Michelle reforçaram a cautela sobre uma aliança com Flávio.
Veículos de esquerda, como a Revista Fórum e o Diário do Centro do Mundo, destacaram que o episódio escancara um lado machista e autoritário do bolsonarismo, tratando a denúncia de Michelle como evidência de que mulheres são silenciadas nas decisões do partido. Para essa cobertura, a pressa em anunciar uma vice mulher é cálculo eleitoral, e não compromisso real com a representação feminina. A cobertura de centro, representada pela Folha de S.Paulo, relatou os fatos com paridade: registrou as acusações de Michelle, a negativa de Flávio, seu pedido condicional de desculpas e a manifestação posterior da ex-primeira-dama dizendo não haver briga nem competição. Já a leitura mais próxima da direita, presente nas falas dos próprios aliados reproduzidas pelas reportagens, enfatiza que se trata de uma disputa familiar amplificada por adversários, sem força para desmobilizar o eleitorado bolsonarista contra Lula, e lembra que a decisão pela vice mulher já estava tomada antes da crise.
Flávio negou as acusações. Em nota nas redes sociais, ao lado da esposa, afirmou ter 24 anos de vida pública e nunca ter desrespeitado, maltratado ou humilhado uma mulher. Disse que, se em algum momento ofendeu Michelle, pedia desculpas, e voltou a convidá-la para uma agenda com lideranças femininas: 'Coração segue aberto, Michelle. Preciso de todo mundo junto comigo.' Michelle, por sua vez, declarou depois não ter raiva de ninguém e que buscava esclarecer uma situação deturpada.
O que ainda não se sabe é o nome definitivo da candidata a vice, que deve ser anunciado nas próximas semanas, e qual será o impacto eleitoral concreto da crise sobre Flávio entre eleitoras e evangélicos. Também permanece em aberto se a aliança com a federação PP-União Brasil será mantida diante do desgaste.