O caso Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, voltou ao centro do debate político com dois desdobramentos paralelos: uma definição em curso no Supremo Tribunal Federal sobre quem deve relatar o processo e a reação irritada do senador Flávio Bolsonaro a perguntas sobre o financiamento do filme.
A cobertura de centro relatou que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, apresentou manifestação defendendo o envio do caso ao ministro André Mendonça. A decisão, porém, não está fechada: o parecer da PGR não obriga o Supremo a seguir esse entendimento, e a palavra final sobre o relator caberá ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin. Juristas que acompanham o processo ponderam que a discussão vai além de escolher um magistrado, podendo influenciar como o tribunal estabelece conexões entre diferentes investigações e define disputas de competência.
No segundo eixo, o senador Flávio Bolsonaro concedeu entrevista ao SBT News e elevou o tom ao ser novamente questionado sobre os gastos e a prestação de contas da produção. Ele afirmou aguardar que a produtora Go Up Entertainment apresente as contas, já que teria sido ela a realizar os gastos e contratações. Flávio também negou que o empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, tenha investido diretamente no projeto, atribuindo o aporte a uma empresa indicada pelo empresário.
Nos pontos factuais há convergência entre as fontes: existe uma manifestação da PGR a favor de André Mendonça, a decisão final é de Fachin, e Flávio sustenta que a prestação de contas é responsabilidade da produtora. A partir daí, os enquadramentos se separam.
Veículos de esquerda destacaram que aliados de Lula leem a tese da PGR como uma burla ao conceito de juiz natural, que prevê que a definição do magistrado siga regras prévias de competência e conexão. Para esse campo, o caso Dark Horse tem ligação com investigações já conduzidas por Alexandre de Moraes, inclusive a atuação já condenada do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, e a manobra serviria para afastar o caso desse alcance. A mesma cobertura enfatizou a irritação do senador e o vínculo com Daniel Vorcaro como sinais de falta de transparência sobre a origem do dinheiro.
A cobertura de centro tratou os dois lados com paridade, registrando tanto a avaliação do PT quanto a comemoração interna do entorno de Flávio, sem aderir a nenhuma das interpretações. Já a leitura mais à direita, expressa pelo próprio entorno do pré-candidato do PL, comemorou o parecer da PGR: a avaliação é de que ele reforça argumentos da defesa e pode abrir espaço para uma interpretação mais restritiva das conexões entre investigações, vista como defesa do devido processo e das regras prévias de competência.
O que ainda não se sabe é decisivo. Fachin ainda não decidiu se acatará a tese da PGR e quem de fato relatará o caso. Não há detalhamento público sobre o teor concreto das supostas irregularidades de financiamento, nem manifestação da produtora Go Up Entertainment sobre a prestação de contas que Flávio diz aguardar. Também permanece em aberto se a eventual mudança de relator alterará o rumo das investigações conexas.