O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, chamou Pablo Marçal (PRTB) de “cara do bem, preparado e bem-intencionado” na manhã de quinta-feira, 20 de agosto de 2026, durante sua primeira agenda de campanha na cidade de São Paulo. A declaração foi dada a jornalistas no Mercado Municipal de São Miguel Paulista, na zona leste da capital, onde o senador estava acompanhado do prefeito Ricardo Nunes (MDB), dos candidatos ao Senado Guilherme Derrite e André do Prado e do presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo. “Todo mundo que está se unindo a favor do Brasil, a gente tem que abraçar”, disse o candidato, que definiu a eleição como um confronto “entre o Brasil e o PT”, e não entre ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O aceno ocorreu no mesmo dia em que a Justiça Eleitoral apertou o cerco sobre o destinatário do elogio. O Tribunal Superior Eleitoral determinou, em caráter liminar, que Marçal fique impedido de acessar o Fundo Especial de Financiamento de Campanha e o Fundo Partidário, de aparecer no horário eleitoral gratuito em rádio e televisão e de participar de debates, até que a Corte julgue em definitivo o registro de sua candidatura. Marçal está inelegível até 2032 por condenação por abuso de poder político e econômico na campanha de 2024 à Prefeitura de São Paulo, decisão mantida por unanimidade pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo em 5 de agosto deste ano. Ele conseguiu registrar a candidatura no último dia do prazo, amparado por liminar que reconheceu sua filiação ao PRTB com efeito retroativo, e o Ministério Público Eleitoral pediu a impugnação alegando tanto a inelegibilidade quanto a falha na comprovação de filiação.
Toda a cobertura converge nesses pontos: a citação literal, o local do ato, a presença do prefeito da capital, a ausência do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) na parte da manhã, que estava em uma sabatina, e a decisão do Tribunal Superior Eleitoral tomada horas depois. Também há convergência sobre o histórico da rivalidade: Marçal atacou Flávio Bolsonaro e Ricardo Nunes na disputa municipal de 2024 e depois pediu desculpas, tema que o prefeito tratou como “página virada”, invocando a condição de cristão dos três nomes do grupo.
A divergência aparece no enquadramento. Veículos de esquerda destacaram a contradição entre o adjetivo “do bem” e o passado recente do elogiado, lembrando que ele encerrou a campanha de 2024 apresentando um laudo falso e acusando sem provas Guilherme Boulos (PSOL) de uso de drogas, e sustentaram que a candidatura do PRTB funcionaria na prática como anteparo, absorvendo ataques de outros postulantes de direita. Veículos de direita enfatizaram o cálculo eleitoral do gesto: a zona leste é onde Marçal foi o mais votado em 2024 e onde o prefeito ficou em segundo lugar no distrito visitado, e a aliança com Ricardo Nunes dá capilaridade na periferia, com meta de cerca de 3 milhões de votos na capital. A cobertura de centro relatou o episódio de forma mais descritiva, encadeando a declaração, a agenda, o programa municipal de segurança alimentar que o candidato promete replicar no país e a cronologia das decisões judiciais.
Outro ponto de tensão foi a prestação de contas do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro, que recebeu recursos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro. Questionado, o senador afirmou que o documento vazou do processo, que “estava tudo certinho” e que quem deve explicações é o presidente, citando tratativas envolvendo a presidência do Banco Central. A produtora declarou à Justiça que o longa custou 75 milhões de reais, dos quais 54 milhões foram gastos no exterior. O senador havia prometido apresentar um relatório sobre o financiamento e não o fez até agora. Do lado de fora do mercado, cerca de uma centena de manifestantes protestou contra o senador e, sobretudo, contra o governador, dizendo não ter vínculo partidário e citar temas como violência policial.
O que ainda não se sabe é o desfecho de mérito do registro de Marçal no Tribunal Superior Eleitoral, sem data anunciada, e se o candidato do PL formalizará algum tipo de aliança com o PRTB caso a candidatura seja barrada. Também não há resposta pública do governo federal ou do PT às acusações feitas na agenda, nem a apresentação do relatório de contas do filme prometido pelo senador.