A greve dos ferroviários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, a CPTM, paralisou parcialmente três linhas de trem da Grande São Paulo entre a madrugada de terça-feira, 4 de agosto de 2026, e a tarde de quarta-feira, 5. O movimento atingiu as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, além do Expresso Aeroporto, e terminou depois que a categoria aprovou, em assembleia, uma proposta apresentada pelo governo estadual a partir de mediação da Justiça do Trabalho. O placar do encerramento foi de 131 votos favoráveis ao retorno contra 26 pela continuidade da paralisação.
O estopim não foi salário. As três linhas foram concedidas à iniciativa privada, para a empresa Trivia Trens, no fim de junho. Nas primeiras semanas de operação privada houve panes sucessivas e um princípio de incêndio, o que levou a agência reguladora de transportes do Estado a determinar a devolução temporária dos ramais à CPTM por um prazo de 90 dias. Foi durante essa reorganização que o sindicato da categoria afirmou identificar risco de demissão de centenas de funcionários e passou a exigir garantia formal de emprego, além de defender a retomada permanente do controle estatal das linhas.
Os relatos convergem quase inteiramente sobre o que aconteceu na rua. O governo de São Paulo acionou um plano de contingência que antecipou a abertura das estações do Metrô para as 4h, colocou composições extras na Linha 3-Vermelha e realizou manobras intermediárias em estações estratégicas. A CPTM acionou o Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência, com 128 ônibus atendendo os trechos afetados. A Polícia Militar reforçou o policiamento no entorno das estações e o rodízio municipal de veículos foi suspenso na capital. No campo jurídico, a companhia recorreu ao Tribunal Regional do Trabalho, que determinou a manutenção de 80% do efetivo nos horários de pico e 60% nos demais períodos, sob multa diária de R$ 400 mil ao sindicato. Todas as coberturas registram ainda que houve superlotação em estações como Itaquera.
A divergência aparece no que cada lado escolhe como assunto central. Veículos de esquerda destacaram a motivação política do movimento: trataram a concessão como processo pouco transparente e lesivo aos interesses dos paulistas e dos trabalhadores, deram espaço à reivindicação de reestatização definitiva dos trechos concedidos e reproduziram a deliberação da categoria de manter estado de greve para fiscalizar o cumprimento dos compromissos. Nessa leitura, as falhas registradas sob gestão privada são a evidência principal de que o serviço deveria permanecer público.
A cobertura de centro relatou sobretudo a operação e a negociação. Detalhou linha a linha o que funcionava e o que estava parado, listou as medidas emergenciais e o número de ônibus mobilizados, e reproduziu a nota em que o governo estadual lamentou a manutenção da greve e afirmou que a paralisação comprometia o deslocamento de milhares de trabalhadores e estudantes. Esses textos também registraram os compromissos discutidos na mesa: preservação dos postos de trabalho, absorção de empregados por outros órgãos estaduais, incorporação da Estrada de Ferro Campos do Jordão pela CPTM e inclusão dos ferroviários no instituto de assistência médica do servidor estadual.
Veículos de direita não aparecem entre as fontes que cobriram este caso, de modo que o argumento favorável à concessão chegou ao leitor sobretudo pelas notas oficiais do governo estadual reproduzidas na cobertura de centro, que apresentam a transferência das linhas como caminho de expansão e modernização do sistema.
Algumas peças seguem em aberto. Não se conhece o texto formal do acordo, que segundo o próprio governo ainda precisa ser convertido em projeto de lei, nem quantos trabalhadores serão efetivamente remanejados e para quais estatais. Também não está esclarecido o que acontece quando terminar o prazo de 90 dias de operação da CPTM, se a concessionária privada reassume os ramais e sob quais condições. As causas técnicas das panes e do princípio de incêndio no início da operação privada não foram detalhadas por nenhuma das fontes, assim como o destino do projeto que tramita na Assembleia Legislativa e a situação dos trabalhadores da Linha 10-Turquesa, que segue sob operação estatal.