O dia 25 de junho de 2026 concentrou dois movimentos que voltaram a colocar o Judiciário, o governo Lula e o campo bolsonarista em rota de colisão. De um lado, o Ministério da Justiça informou ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ter solicitado às autoridades dos Estados Unidos informações atualizadas sobre a carta rogatória destinada a notificar o blogueiro Paulo Figueiredo. De outro, o Partido Liberal protocolou no Tribunal Superior Eleitoral uma representação pedindo a suspensão das campanhas publicitárias institucionais do governo federal, sob a alegação de estouro do teto legal de gastos em ano eleitoral.
No caso de Figueiredo, a cobertura de centro relatou os fatos com detalhe processual. O blogueiro foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por coação no curso do processo da trama golpista, a mesma ação que levou à condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro a quatro anos e dois meses de reclusão e à condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. Como Figueiredo tem residência permanente nos Estados Unidos, ele precisa ser informado do processo por meio das autoridades locais. Em outubro de 2025, Moraes determinou a expedição da carta rogatória, e sem essa notificação a Justiça brasileira não pode avançar na ação.
Veículos de esquerda enfatizaram a dimensão de articulação contra o Brasil no exterior. Segundo essa cobertura, a PGR sustenta que Figueiredo agiu em conluio com o governo norte-americano para tentar conquistar uma anistia a Bolsonaro, e atribui à atuação dele e de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos o cancelamento de vistos de autoridades, as tarifas impostas ao Brasil e a aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes. Nessa chave, a trama golpista aparece como fato já julgado e a rede de contatos de Figueiredo nos EUA é descrita como um obstáculo deliberado ao andamento do caso.
No segundo eixo, a representação do PL no TSE, a leitura predominante foi a do campo de direita. O partido, ligado à articulação em torno de Flávio Bolsonaro, alega que o governo Lula ultrapassou o teto legal de gastos com propaganda no primeiro semestre de um ano eleitoral. Com base em dados do Portal da Transparência e do sistema Siga Brasil, os advogados apontam que a categoria de serviços de publicidade registrou R$ 785 milhões em gastos até 18 de junho, contra um teto proporcional de R$ 618 milhões, uma ultrapassagem de R$ 167,6 milhões, cerca de 30%. Em recorte mais estrito, os gastos diretos da Secom teriam chegado a R$ 178 milhões, ante um limite de R$ 135,7 milhões. O pedido invoca o artigo 73 da Lei das Eleições e foi distribuído ao ministro André Mendonça, que na semana anterior já determinara que deputados apagassem postagens associando Flávio Bolsonaro ao crime organizado.
As divergências de cobertura ficam nítidas. Veículos de direita enfatizaram o suposto uso da máquina pública em favor da reeleição e a tese de desequilíbrio do pleito, enquanto a cobertura de centro tratou as acusações como alegações da parte, apresentando os números técnicos sem endossá-los. A esquerda, por sua vez, deslocou o foco para a responsabilização do campo bolsonarista por danos ao Brasil no exterior e tratou tanto a defesa de Figueiredo quanto a ofensiva eleitoral do PL como tentativas de obstrução.
O que ainda não se sabe é como Moraes e o STF responderão ao pedido de informações sobre a carta rogatória e em que prazo a notificação de Figueiredo poderá ser concretizada. No TSE, não há definição sobre se Mendonça concederá a liminar pedida pelo PL nem manifestação do governo Lula e da Secretaria de Comunicação Social contestando os cálculos apresentados pelo partido.