A pré-campanha presidencial de 2026 ganhou novos capítulos de tensão envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, em dois movimentos quase simultâneos. No dia 22 de junho, durante evento da Confederação Nacional da Indústria sobre as eleições, o senador atacou o Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, a Corte atua de forma parcial no processo eleitoral: 'O Supremo hoje parece mais uma delegacia de polícia do que uma Corte Constitucional. A todo momento tem um ou outro integrante daquela Corte querendo interferir no processo eleitoral, querendo escolher quem pode ser candidato e quem não pode.' No dia seguinte, o pré-candidato ao governo de São Paulo e aliado de Lula, Fernando Haddad (PT), usou as redes sociais para responder ao adversário, chamando-o de 'muito despreparado' e afirmando que ele 'nunca aprovou um projeto relevante na vida', mesmo após anos de mandato no Senado.
Os dois episódios convergem no mesmo arco: a disputa pelo Planalto entre o campo bolsonarista e o petista, com as eleições marcadas para 4 de outubro e segundo turno em 25 de outubro. A cobertura de centro relatou os fatos de forma direta, registrando a fala de Flávio na CNI, a réplica de Haddad nas redes e o calendário eleitoral, sem atribuir juízo de valor às declarações.
É no enquadramento que os lados se separam. Veículos de esquerda destacaram que o ataque de Flávio ao STF escancara um 'viés autoritário' e representa a continuidade do que classificam como golpismo, lendo a comparação da Corte com 'uma delegacia de polícia' como deslegitimação das instituições democráticas e do próprio processo eleitoral. Nessa leitura, o pré-candidato teria abandonado uma versão 'moderada' e exposto um projeto centrado em ataques, não em propostas, reforçado pela guerra interna no clã, com Michelle Bolsonaro atacando os enteados e a tentativa fracassada de aliança com Ciro Gomes no Ceará. Veículos de direita, por sua vez, enfatizaram a crítica de Flávio como uma preocupação legítima com o equilíbrio entre os Poderes e com a soberania do voto, tratando a interferência do Judiciário no processo eleitoral como o ponto central. Nessa chave, o ataque de Haddad aparece como manobra do PT para desqualificar pessoalmente o adversário em vez de debater propostas.
O que ainda não se sabe é como Flávio Bolsonaro responderá publicamente à provocação de Haddad e se a crítica ao STF será incorporada de forma estruturada ao programa de campanha do PL. Também permanece em aberto o desfecho da disputa interna no clã Bolsonaro e o efeito do rompimento com Ciro Gomes sobre o arco de alianças da direita rumo a outubro.