A inflação medida pelo IPCA-15, considerada a prévia do índice oficial de preços, desacelerou para 0,41% em junho de 2026, depois de marcar 0,62% em maio. O resultado, divulgado pelo IBGE nesta quinta-feira, ficou abaixo da mediana de 0,44% esperada pelo mercado financeiro, dentro de um intervalo de projeções que ia de 0,35% a 0,52%. No acumulado de doze meses, o IPCA-15 passou a somar alta de 4,80%, ante 4,64% até maio, mantendo-se acima do teto de 4,5% da meta perseguida pelo Banco Central.
Entre os itens que mais pressionaram o índice, a cobertura de centro destacou a energia elétrica residencial, que subiu 2,04% com a vigência da bandeira tarifária amarela e reajustes em algumas regiões. A batata-inglesa avançou 29,42%, a passagem aérea 7,24%, o tomate 17,27% e o feijão-carioca 14,29%. No primeiro semestre, tomate, cenoura e batata-inglesa mais que dobraram de preço. No sentido oposto, houve recuo em combustíveis, com a gasolina caindo 0,73% e o etanol 5,30%, além de quedas no café moído e nas frutas. Entre as capitais pesquisadas, Brasília teve a maior alta, puxada por passagem aérea e gasolina, enquanto Rio, Curitiba e Salvador registraram os menores resultados.
O pano de fundo econômico foi tratado de formas distintas pelos veículos. Veículos de esquerda enfatizaram que a desaceleração reflete o efeito das medidas adotadas pelo governo Lula para conter a carestia dos combustíveis após os choques externos, e ressaltaram que a principal fonte de pressão, a guerra no Irã e a alta do petróleo, está fora do controle do país. Nessa leitura, a queda da gasolina e do etanol alivia diretamente o orçamento das famílias trabalhadoras, e a intervenção do Estado nos preços de energia funciona como proteção social diante da instabilidade global.
Veículos de direita, por sua vez, enfatizaram que, mesmo com o recuo mensal, o índice acumula 4,80% em doze meses e segue acima do teto da meta, com o boletim Focus projetando 5,33% até dezembro, em alta há quinze semanas consecutivas. Nessa perspectiva, a disparada da energia elétrica e a duplicação dos preços de alimentos básicos no semestre revelam fragilidade no controle inflacionário, e o pacote de medidas em ano eleitoral levanta dúvidas sobre disciplina fiscal. A cobertura de centro, mais factual, relatou os números do IBGE com paridade, situando o resultado em relação às projeções da Bloomberg e da Reuters e ao contexto da política monetária, sem atribuir mérito ou culpa.
Todos os lados convergem nos dados objetivos: o IPCA-15 desacelerou no mês, mas a inflação anual continua acima da meta. Na semana anterior, o Banco Central reduziu a taxa básica de juros, a Selic, pela terceira vez seguida, de 14,5% para 14,25% ao ano, mantendo a indefinição sobre os próximos passos. O cenário de preços em ano eleitoral pressiona o governo, já que o presidente Lula deve disputar a reeleição em outubro.
O que ainda não se sabe é a magnitude do ciclo de cortes de juros, já que o próprio Banco Central não sinalizou o rumo, e qual será o impacto efetivo do fenômeno climático El Niño sobre a produção agropecuária e os preços dos alimentos no segundo semestre. O resultado fechado do IPCA de junho só será divulgado pelo IBGE em 10 de julho.