A Justiça de Mato Grosso do Sul negou, na última quinta-feira (9), o pedido da prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), para retirar do ar publicações da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) que criticam a gestão municipal. A decisão foi assinada pelo juiz Marcus Abreu de Magalhães, da 12ª Vara Cível de Campo Grande, que rejeitou o pedido de urgência apresentado pela prefeita e manteve as postagens no ar.
Segundo o magistrado, ainda não há elementos suficientes para justificar a remoção dos conteúdos, e a liberdade de expressão de uma parlamentar deve ser preservada no debate político. Em sua decisão, ele afirmou que as manifestações de Erika Hilton guardam relação direta com a atividade parlamentar da deputada, inseridas em contexto de fiscalização política e de temas de evidente interesse público, o que atrai, ao menos em tese, a proteção da imunidade parlamentar. O juiz também citou a vedação constitucional à censura prévia como fundamento para não determinar a retirada imediata dos posts.
A ação de Adriane Lopes foi motivada por uma publicação feita por Erika Hilton em maio de 2026 em suas redes sociais, na qual a deputada citou uma pesquisa da AtlasIntel que colocou a prefeita na última posição entre os gestores de capitais brasileiras em aprovação popular, com 79% de desaprovação. No mesmo post, Erika fez acusações sobre um suposto desvio de R$ 156 milhões de recursos da saúde pública e sobre a aplicação irregular de R$ 1,3 milhão de dinheiro de aposentados do Instituto de Previdência Municipal no Banco Master. Na ação, a prefeita pediu a remoção das publicações, retratação pública e indenização de R$ 15 mil por danos morais, alegando que as declarações eram falsas e ofensivas à sua honra.
A cobertura de centro, feita pelo g1 e pelo Poder360, relatou os fatos de forma direta, reproduzindo os termos da decisão judicial e contextualizando o caso com a pesquisa de aprovação e com a lei sancionada por Adriane Lopes que restringe o uso de banheiros femininos por mulheres trans na cidade, sancionada poucas semanas antes da publicação de Erika. Já veículos de direita, como O Antagonista, enfatizaram a decisão como reafirmação da vedação constitucional à censura prévia e da imunidade parlamentar, destacando o dever de responsabilização institucional da prefeitura diante das denúncias sobre o uso de recursos públicos. Não há, até o momento, cobertura de veículos de esquerda sobre o episódio, mas o caso dialoga diretamente com pautas historicamente defendidas por esse campo, como a proteção de parlamentares de grupos minorizados: Erika Hilton é a primeira mulher trans negra eleita à Câmara Federal, e a ação é lida por esse prisma como tentativa de silenciamento por parte do poder público.
O juiz também convocou as partes para uma audiência de conciliação, e o mérito da ação ainda será analisado, com produção de provas e contraditório sobre as acusações feitas por Erika Hilton. Depois da decisão, a deputada comemorou o resultado e voltou a cobrar explicações da prefeita sobre o uso dos recursos do Instituto de Previdência Municipal. O que ainda não se sabe é se as acusações sobre o desvio de recursos da saúde e a aplicação irregular do dinheiro dos aposentados serão comprovadas ao longo do processo, nem qual será o desfecho da audiência de conciliação marcada pela Justiça.