A Polícia Federal encontrou no celular da lobista Roberta Luchsinger mensagens em que ela afirma que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi responsável por marcar uma reunião no Palácio do Planalto para o governador do Maranhão, Carlos Brandão. Em áudio enviado em 22 de maio de 2024, a lobista diz ao filho do presidente que o pai dele havia afirmado que iria prosseguir com a liberação de uma obra no Estado e que o então chefe de gabinete presidencial, Marco Aurélio Santana Ribeiro, receberia o governador às 16 horas. A agenda oficial registra o encontro no mesmo dia, às 17h40, descrito apenas como reunião executiva.
As mensagens integram uma investigação sobre suspeita de tráfico de influência. Segundo a apuração, a lobista intermediou a contratação, por órgãos ligados ao governo do Maranhão, de uma empresa de informática do empresário Cléber Ribas, e também atuava em favor dele junto ao governo federal. A 3Structure, empresa de Ribas, fechou contratos de R$ 5,8 milhões com o governo maranhense em 2024, junto ao Porto do Itaqui e à Secretaria de Fazenda, e obteve dois contratos de R$ 14,4 milhões e R$ 19,2 milhões com o Ministério do Desenvolvimento Social, em dezembro de 2023 e abril de 2024. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras aponta que o empresário pagou ao menos R$ 2,5 milhões à lobista entre março de 2024 e dezembro de 2025. Outros R$ 4,4 milhões teriam chegado a ela pela HSLZ, empresa contratada com recursos estaduais para manter o Hospital dos Servidores Públicos do Maranhão. Em 21 de junho de 2024, um mês depois da reunião citada nas mensagens, o presidente foi a São Luís anunciar um pacote de R$ 59 bilhões em obras para o Maranhão dentro do Novo Programa de Aceleração do Crescimento, com a renovação da concessão do Porto do Itaqui entre as medidas.
Os envolvidos deram versões distintas. Carlos Brandão negou relação com a lobista, disse que sua agenda não depende da articulação de terceiros e afirmou que o presidente é aliado do Maranhão. A defesa de Cléber Ribas sustentou que ele contratou serviços de assessoria para captação de clientes e identificação de oportunidades de negócio, atividade lícita e comum no mercado. O governo estadual afirmou não ter ingerência sobre empresas privadas, e a direção do hospital recusou-se a explicar o repasse. O Palácio do Planalto não se manifestou, e a defesa do filho do presidente criticou o que chamou de vazamentos seletivos com o objetivo de interferir no processo eleitoral.
A cobertura de centro relatou o caso pelo eixo documental e acrescentou outro achado das mesmas mensagens: a lobista afirma que o presidente lhe ofereceu um cargo no governo federal, proposta que ela teria recusado para se dedicar a negócios privados com o filho dele. Esse mesmo enquadramento registra a disputa entre a Procuradoria-Geral da República e ministros do Supremo Tribunal Federal sobre quem conduz os inquéritos, tratando a questão de competência como parte central da história. Veículos de direita enfatizaram o volume de dinheiro público envolvido e o acesso privilegiado que o parentesco presidencial abriria, encadeando a reunião no Planalto, os contratos das empresas e o anúncio bilionário de obras como um mesmo circuito, além de cobrar do Ministério Público e do Judiciário o mesmo rigor aplicado a adversários do governo. À esquerda, ainda com presença marginal nesta cobertura, a leitura predominante é a da defesa: articular agenda entre o Executivo federal e um governo estadual é ato ordinário da política, o inquérito não apresentou até aqui ato de ofício nem contrapartida, e a exposição de conversas privadas em ano eleitoral levanta suspeita sobre o próprio método da divulgação.
O que ainda não se sabe é justamente o elo entre os fatos. Não há demonstração pública de que a reunião tenha influenciado a liberação de qualquer obra, nem de que os contratos das empresas tenham resultado de interferência do filho do presidente. O teor da reunião executiva no Planalto permanece indeterminado, o motivo do repasse do hospital maranhense à lobista segue sem explicação, e não está definido se o caso será conduzido pelo Supremo Tribunal Federal ou por instância inferior. Também não há informação sobre indiciamento ou denúncia formal contra qualquer um dos citados.