O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou nesta semana suas agendas no Rio de Janeiro e em São Paulo, os dois maiores colégios eleitorais do país, num movimento que escancara a centralidade desses estados na corrida presidencial de 2026 contra o senador Flávio Bolsonaro. Em 22 e 23 de junho, o petista cumpriu cinco compromissos no Rio ao lado do governador interino Ricardo Couto e, em seguida, voltou-se para São Paulo, enquanto o senador acompanhava o governador Tarcísio de Freitas no interior paulista.
O principal ato no Rio foi a assinatura da adesão do estado ao Propag, o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, que permite refinanciar a dívida estadual com a União mediante contrapartidas em áreas como educação. Segundo a gestão fluminense, a dívida cairá de R$ 210,6 bilhões para R$ 168,5 bilhões, e a parcela mensal recuará de uma média de R$ 436 milhões para R$ 119 milhões a partir de julho, com alívio de R$ 3 bilhões só neste ano. Lula também assinou convênios do Novo PAC no valor de R$ 700 milhões para obras em três favelas da capital fluminense. Em São Paulo, o presidente esteve com o ex-ministro Fernando Haddad em Guarulhos e na capital, onde anunciou o programa Celular Seguro e entregou equipamentos de radioterapia.
A cobertura de centro relatou que a estratégia da equipe petista é aproveitar a fragilização do palanque de Flávio Bolsonaro no Rio, estado onde Jair Bolsonaro venceu por 14 pontos em 2022 e 36 em 2018. Esse enfraquecimento decorre, em boa parte, da desistência de Cláudio Castro da pré-candidatura ao Senado depois de ser alvo de operações da Polícia Federal. Reportagens de centro também registraram que o interino Ricardo Couto, um desembargador que se diz fora da política, conduz auditorias de contratos e exonerações de funcionários fantasmas, conquistando avaliação positiva segundo pesquisas internas da campanha.
Veículos de esquerda enfatizariam o conteúdo social dessas ações: o Propag como cooperação do Estado com os entes federados para liberar recursos a áreas sociais, os R$ 700 milhões do PAC levando obras a favelas historicamente esquecidas, e as auditorias do interino como esforço de moralizar a política e romper com a herança do grupo rival. A entrega de centros de tratamento de câncer em São Paulo seria lida como prova do papel do investimento federal na saúde pública.
Veículos de direita, por sua vez, enfatizaram que a maratona de anúncios tem forte conotação eleitoral e se apoia no uso da máquina pública, além de depender de um governador interino não eleito no Rio. Para essa cobertura, Flávio Bolsonaro segue como o principal opositor de Lula e amarra o palanque da direita ao lado de Tarcísio de Freitas, que desponta como favorito em São Paulo após as desistências de Paulo Serra e Kim Kataguiri e que pode resolver a disputa estadual já no primeiro turno. A ida de Tarcísio e Flávio à Feicorte, em Presidente Prudente, foi apresentada como sinalização ao agronegócio, setor de peso no interior paulista, e o Celular Seguro foi tratado como raro exemplo de sucesso numa área em que a gestão petista é considerada vulnerável: a segurança pública.
O que ainda não se sabe é como o grupo de Flávio Bolsonaro e o PL responderão às críticas veladas de Lula no Rio, quais são os números exatos das pesquisas citadas pelas duas campanhas, e se o afunilamento das candidaturas em São Paulo se confirmará nas urnas. Também permanece em aberto se a estratégia petista de capitalizar a gestão interina fluminense se sustentará até a eleição, e qual será o desempenho efetivo dos dois lados nos colégios eleitorais decisivos do Rio e de São Paulo.