O candidato à presidência Flávio Bolsonaro, do PL, chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, de irresponsável depois do início do processo que pode levar à aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica em resposta ao tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump. A fala foi dada no sábado, 15 de agosto, durante uma visita a uma padaria na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. "Alguém que atirou pedras, provocou os Estados Unidos a todo o momento, xingou pessoas que são do governo americano, agrediu gratuitamente o governo americano", disse. Para ele, Lula se apequenou em todo o processo e "está pensando na eleição e não na nossa nação".
O rito que motivou a declaração já está em andamento. O Ministério das Relações Exteriores vai notificar o governo dos Estados Unidos e solicitar a abertura de consultas diplomáticas. A Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior, conhecida pela sigla Camex, já compartilhou o pleito com os demais integrantes do Comitê-Executivo de Gestão. A partir daí, os prazos são longos e escalonados: a Secretaria-Executiva tem até 30 dias, prorrogáveis por mais 30, para preparar um relatório e indicar se a situação se enquadra nas hipóteses previstas na Lei da Reciprocidade. O documento segue depois para o Comitê-Executivo de Gestão, que tem outros 30 dias, também prorrogáveis por 30, para decidir sobre o enquadramento. Ou seja, a eventual retaliação comercial não é imediata e pode levar meses até ganhar forma concreta.
A cobertura de centro tratou o episódio de forma descritiva, reproduzindo a citação entre aspas, o calendário administrativo da Camex e o passo diplomático do Itamaraty sem qualificar a decisão do governo. Veículos de direita deram destaque à crítica do candidato e ao argumento de que o desgaste com Washington é fruto de escolhas retóricas do próprio Palácio do Planalto, com o custo recaindo sobre exportadores. Até o fechamento desta análise, nenhum veículo de esquerda havia coberto o episódio no conjunto de fontes reunido, de modo que o contra-argumento habitual desse campo, o de que acionar uma lei aprovada pelo Congresso é exercício de soberania e não provocação, não aparece com atribuição a nenhuma reportagem publicada.
O desequilíbrio mais visível na cobertura disponível é a ausência de resposta do lado acusado. Nenhuma das matérias registra manifestação do governo federal, do PT ou do Ministério das Relações Exteriores às acusações de irresponsabilidade, e nenhuma explica ao leitor o que a Lei de Reciprocidade Econômica autoriza o Brasil a fazer na prática, nem quais produtos brasileiros foram atingidos pelo tarifaço e em qual percentual.
Na mesma conversa com jornalistas, Flávio Bolsonaro tratou de um segundo assunto: a filiação feita em seu nome ao partido Missão. "Acho que tentaram filiar alguém com voto em um partido sem votos. Obviamente, eu não pedi pra que isso acontecesse, foi uma fraude do lado de lá", afirmou, cobrando que a polícia investigue e responsabilize os culpados, já que se trata de crime previsto no código eleitoral. Na sexta-feira, 14 de agosto, o partido Missão afirmou ter reunido registros técnicos capazes de ajudar a identificar quem realizou o cadastro. Na petição encaminhada ao Tribunal Superior Eleitoral, a legenda diz que seu setor técnico recuperou informações do registro atribuído ao candidato, entre elas o endereço de IP utilizado na operação, feita em 2 de agosto, às 9h05. O relator do caso no tribunal é o ministro Floriano de Azevedo Marques.
O que ainda não se sabe é se a Camex vai de fato enquadrar o tarifaço nas hipóteses da Lei de Reciprocidade, quais medidas seriam adotadas caso isso ocorra e sobre quais produtos americanos elas recairiam. Também segue em aberto o resultado das consultas diplomáticas pedidas pelo Itamaraty, se haverá negociação antes do fim dos prazos administrativos e quem executou a filiação contestada ao partido Missão, além de quando o Tribunal Superior Eleitoral deve se pronunciar sobre a petição.