A Procuradoria-Geral da República rejeitou nesta semana a proposta de delação premiada de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, o BRB, um dos investigados no escândalo do Banco Master. A decisão foi assinada pelo procurador-geral Paulo Gonet, que classificou a proposta como de 'reduzida utilidade e débil eficácia potencial para os fins a que deveria servir'. Para Gonet, o material apresentado pela defesa não trazia elementos inéditos capazes de fazer as investigações avançarem, já que os pontos levantados por Costa repetiam o que os investigadores já haviam descoberto por conta própria.
Costa é apontado como peça de uma engrenagem montada para viabilizar a venda de carteiras consideradas fictícias do Banco Master ao BRB, banco estatal do Distrito Federal. A operação só não se concretizou por causa de um veto do Banco Central. A Polícia Federal aponta que o ex-dirigente teria ocultado seis imóveis recebidos como propina, quatro em São Paulo e dois em Brasília, somando 146,5 milhões de reais, dos quais cerca de 74,6 milhões já teriam sido pagos.
A cobertura de centro, em texto de síntese, relatou os fatos de forma factual e atribuída a múltiplas fontes, detalhando que, no mesmo período, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou a transferência de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, para o Complexo da Papuda. Vorcaro estava preso desde março na sede da Polícia Federal em Brasília para facilitar negociações de delação, mas suas propostas também foram rejeitadas pela PF e pela PGR. Mendonça determinou ainda que Vorcaro e Costa, ambos presos na chamada Papudinha, não se comuniquem.
Veículos de esquerda enfatizaram o ângulo de fiscalização do poder econômico, destacando que a negativa da PGR mostra rigor contra acordos sem efetiva devolução de recursos públicos e que o episódio expõe a tentativa de usar um banco público para socorrer uma instituição privada em crise. Para essa cobertura, o caso ilustra a concentração de patrimônio obtido por meios ilícitos e a importância de instituições como o Banco Central na proteção do interesse público. Esses mesmos veículos detalharam o histórico da Operação Compliance Zero, que começou em novembro de 2025 com a suspeita de emissão irregular de Certificados de Depósito Bancário, os CDBs, que o Master oferecia com rendimento de até 40% acima da média do mercado, levantando dúvidas sobre o lastro dos títulos.
Embora não haja na cobertura deste cluster um veículo de direita declarado, o enquadramento que veículos de direita costumam dar a casos assim é o da accountability institucional e da responsabilidade individual: falhas de governança no sistema financeiro, crítica ao uso de bancos estatais para socorrer empresas privadas mal geridas e ênfase na proteção do dinheiro do contribuinte. Nessa leitura, as prisões preventivas e a aplicação da lei aparecem como restauração da ordem.
A operação tem desdobramentos políticos. A 9ª fase, deflagrada pela Polícia Federal, teve entre os alvos o senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, líder do governo no Senado, e Augusto Ferreira Lima, sócio do Banco Master, com 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal. Ainda no Supremo, o presidente da Corte, Edson Fachin, transferiu para Mendonça a relatoria da investigação sobre o filme 'Dark Horse', em que há suspeita de que recursos dados por Vorcaro à produção tenham sido desviados para despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos e nega as acusações.
O que ainda não se sabe é o desfecho das demais tratativas de delação, o valor final de ressarcimento que poderá ser exigido dos investigados e o alcance das ramificações políticas da operação, que segue sob sigilo em parte das investigações.