O ex-chefe de gabinete da Presidência da República, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, pediu na quarta-feira, 5 de agosto, para deixar a equipe de campanha da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O pedido foi feito em conversa direta com o presidente e ocorre poucos dias depois de virem a público repasses financeiros feitos ao assessor pela empresária Roberta Luchsinger, alvo da Polícia Federal na apuração sobre descontos irregulares em benefícios do INSS.
O assessor confirma ter recebido dinheiro da empresária e sustenta que se tratou de um empréstimo pessoal de 249 mil reais, já quitado por transferência bancária. Em nota, afirmou que a movimentação teve natureza estritamente privada, colocou seus sigilos bancário e fiscal à disposição da Justiça e disse ter constituído advogado para esclarecer os fatos. Procurada nesta quarta-feira, a defesa dele não se manifestou.
Os três veículos que cobriram o caso convergem nos fatos centrais. Marcola havia deixado a chefia de gabinete do Palácio do Planalto duas semanas antes, migrando para a campanha, e chegou a relatar a aliados as operações financeiras com a empresária nessa mesma época. A empresária Roberta Luchsinger é amiga de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente e alvo de três inquéritos no Supremo Tribunal Federal por suspeita de tráfico de influência. A defesa dele nega irregularidades. Em depoimento à Polícia Federal em maio, a empresária afirmou ter apresentado Lulinha ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontado pela corporação como um dos operadores centrais do esquema que teria descontado mais de 6 bilhões de reais de beneficiários do INSS entre 2019 e 2024. A Polícia Federal também afirma ter identificado 1,5 milhão de reais em pagamentos de uma empresa ligada ao lobista para uma companhia da empresária.
A divergência aparece no enquadramento. A cobertura de centro tratou o episódio como crise interna de campanha, detalhando a cronologia da pressão sobre o assessor, os relatos de aliados de que ele estava abatido e a avaliação, até a noite de terça-feira, de que ele permaneceria na equipe caso não pedisse para sair. Essa cobertura também registrou que a empresária pagou boletos do assessor entre quatro e seis meses de 2024, e que as revelações já passaram a ser usadas pelos rivais na disputa presidencial para reforçar a associação do partido do presidente com casos de corrupção. Uma das versões acrescenta que o assessor teria sido alertado por um advogado sobre o problema e tentado devolver o dinheiro.
Veículos de direita deram ênfase à posição institucional do beneficiário dos repasses e ao ponto que consideram não esclarecido: por que um auxiliar com acesso diário ao presidente, responsável por sua agenda e por intermediar seus telefonemas, buscou crédito com uma amiga do filho do presidente em vez de recorrer ao sistema bancário. Nessa leitura, a saída da chefia de gabinete duas semanas antes e a saída agora da campanha aparecem como movimentos de contenção de desgaste, e não como gesto espontâneo de transparência. Veículos de esquerda não deram destaque próprio ao caso até o momento; a leitura provável desse lado, a partir dos mesmos fatos, ressaltaria que o assessor não é alvo de inquérito nem foi indiciado, que abriu voluntariamente seus sigilos e que a sucessão de vazamentos em ano eleitoral tem valor político evidente para os adversários.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não está esclarecido se o empréstimo declarado de 249 mil reais e os boletos pagos ao longo de 2024 correspondem à mesma quantia ou a somas distintas, nem qual documentação sustenta a versão do empréstimo. Não há registro público de contrato, prazo ou juros da operação. Também não se sabe se o assessor será formalmente incluído em alguma linha de apuração da Polícia Federal, qual é o estágio dos três inquéritos que envolvem o filho do presidente e se a campanha fará comunicado oficial sobre a saída. Até o fechamento das reportagens, não havia manifestação formal da coordenação da campanha nem nova declaração da defesa do assessor.