Uma revisão das regras de venda de armas nos Estados Unidos, promovida pelo governo de Donald Trump, pode facilitar o acesso de fuzis norte-americanos às duas maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Depois de determinação da Casa Branca, o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos apresentou, no fim de abril, 34 propostas para afrouxar a regulação do comércio de armas, incluindo a possibilidade de comprar um fuzil pela internet e recebê-lo em casa, sem passar por uma loja física para a checagem de antecedentes.
A cobertura de centro relatou que a revisão reverte restrições impostas pelo governo de Joe Biden, como a exigência ampliada de licença de venda, e substitui a conferência presencial de antecedentes por um procedimento digital. O contexto ganhou peso depois que, em maio, a administração Trump classificou PCC e CV como organizações terroristas internacionais, decisão que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva considera equivocada e capaz de abrir espaço para ações militares americanas em território brasileiro. Especialistas ouvidos por ambas as coberturas, como o pesquisador John Lindsay-Poland, do projeto Stop US Arms to Mexico, e Bruno Langeani, do Instituto Sou da Paz, concordam que o problema central não é a nova classificação, mas o tamanho e a permissividade do mercado varejista de armas nos Estados Unidos, que permite que transações legais terminem em fuzis desviados para o crime organizado. Casos recentes ilustram a rota: em maio, um fuzil AK-47 enviado da Flórida foi apreendido pela Receita Federal escondido dentro de um forno no Aeroporto de Viracopos, e a Polícia Rodoviária Federal fez, no mês passado, no interior do Paraná, a maior apreensão de fuzis de sua história.
A cobertura de esquerda acrescentou uma camada doméstica ao debate, associando o atual fluxo de fuzis à flexibilização das regras de compra de armas promovida durante o governo de Jair Bolsonaro, quando colecionadores, atiradores e caçadores passaram a poder adquirir até 30 armas por pessoa. Embora Lula tenha revogado essas regras em 2023, quem comprou fuzis no período não precisou devolvê-los e ainda pode adquirir munição, caminho que, segundo o Instituto Sou da Paz, pode alimentar desvios para facções. A mesma cobertura cita dado do instituto segundo o qual o Brasil apreendeu 2.152 fuzis em 2025, alta de 167% em relação a 2021, e reforça que fábricas clandestinas já são hoje, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a principal fonte de preocupação no combate ao tráfico de armas, à frente até da importação irregular dos Estados Unidos.
Até o momento, não há cobertura de veículos de direita sobre o caso neste cluster. Ainda não está claro se as mudanças na regulação americana incluirão sanções às lojas da Flórida repetidamente associadas a rastreamentos de armas que terminam no Brasil, nem se a classificação de PCC e CV como organizações terroristas terá efeito prático sobre o comércio de armas americano. Também não há confirmação da origem exata dos 22 fuzis da marca Colt apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal no Paraná, ainda pendente de perícia.