A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou nesta quarta-feira um vídeo de cerca de quinze minutos nas redes sociais para se defender do que chamou de ataques gratuitos e covardes. Segundo ela, as ofensas partiram de pessoas que se diziam fiéis ao ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar após a condenação pela trama golpista. Michelle afirmou que o marido sabe de tudo o que ela tem enfrentado e que as agressões ignoram uma carta em que o próprio Jair pediu o fim dos ataques contra ela.
A cobertura de centro relatou que as críticas teriam se intensificado após o episódio em que Bolsonaro tentou violar a tornozeleira eletrônica e acabou preso na Superintendência da Polícia Federal. Michelle não citou nomes, mas veículos identificaram entre os críticos influenciadores bolsonaristas radicados nos Estados Unidos, como Paulo Figueiredo e Alan dos Santos, além do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Ela disse que esses influenciadores, de longe, induziam pessoas ao erro e comandavam os ataques contra ela.
No mesmo vídeo, a ex-primeira-dama acusou o senador Flávio Bolsonaro de tê-la desrespeitado e maltratado em uma ligação telefônica. Segundo Michelle, o senador disse que seria melhor ela ficar fora das decisões do partido e que ela havia chegado ontem e não entendia nada de política. Ela respondeu que sabe mais de política do que o entorno imagina e prometeu desmentir o que classificou como narrativas falsas. Veículos de direita destacaram que o atrito ocorreu horas depois de Michelle tornar públicas suas críticas à articulação do PL no Ceará para apoiar Ciro Gomes, aliança que ela considera contraditória por Ciro ter contribuído, em sua leitura, para a inelegibilidade do ex-presidente. Ela defende a pré-candidatura do senador Eduardo Girão ao governo do estado.
O pano de fundo é uma disputa de poder na família e no bolsonarismo desde dezembro, quando Flávio anunciou que o pai o havia escolhido como nome do campo para a Presidência em 2026. Desde então, Michelle se afastou do projeto, rompeu relações com Eduardo Bolsonaro e viu a relação com Flávio azedar após o senador classificar sua postura como autoritária, episódio pelo qual ele teria depois pedido desculpas. Sem espaço na corrida presidencial, a ex-primeira-dama chegou a indicar que disputaria o Senado pelo Distrito Federal, embora tenha colocado a própria candidatura em dúvida enquanto Bolsonaro se recupera.
Veículos de direita enfatizaram a defesa de Michelle como uma reivindicação legítima de voz própria dentro do campo conservador e a traição de falsos aliados que contrariam o pedido de trégua feito por Jair. A leitura de esquerda, por sua vez, tende a enxergar na briga pública a desagregação de um projeto político fragilizado pela condenação de Bolsonaro, em que a disputa por protagonismo e espólio eleitoral se sobrepõe a qualquer coerência. A cobertura de centro manteve o registro factual, transcrevendo as falas e situando os atores sem aderir a um lado.
O que ainda não se sabe é como Flávio Bolsonaro responderá às acusações: o senador fez uma transmissão ao vivo cerca de uma hora e meia após o vídeo da madrasta, mas não comentou os desentendimentos. Também permanecem em aberto o desfecho da articulação do PL com Ciro Gomes no Ceará e se Michelle de fato disputará uma vaga no Senado em 2026.