A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) publicou nesta quarta-feira, 24 de junho de 2026, vídeos nas redes sociais em que acusa o enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de tê-la desrespeitado e maltratado durante uma ligação telefônica. O episódio é o capítulo mais recente de uma disputa interna no PL e no próprio clã Bolsonaro a respeito da estratégia eleitoral para 2026, com epicentro nas negociações de alianças no Ceará.
Segundo Michelle, Flávio foi ríspido e teria dito que seria melhor ela ficar fora das decisões do partido, afirmando que ela 'havia chegado ontem' e 'não entendia nada de política'. A ex-primeira-dama declarou ter se sentido 'apunhalada' pelo enteado e, em cerca de 27 minutos de vídeo, reconstruiu sua trajetória à frente da ala feminina do partido desde o fim do governo do marido, em 2023, até a prisão e condenação de Jair Bolsonaro.
A cobertura de centro, predominante neste caso, relatou os fatos de forma factual e atribuída: agências como Estadão Conteúdo, O Globo e a Zero Hora reproduziram as falas de Michelle entre aspas e contextualizaram a origem do atrito. O ponto central da divergência é a aproximação, defendida por Flávio, entre o PL e Ciro Gomes (PSDB), pré-candidato ao governo do Ceará e antigo crítico do bolsonarismo. Michelle defende o nome do senador Eduardo Girão (Novo) e argumenta que uma eventual união contra o PT só deveria ocorrer em um segundo turno. Ela também criticou o deputado federal André Fernandes (PL-CE), apontado como principal fiador da aliança com Ciro, e disse que a vereadora Priscila Costa estaria sendo preterida na disputa por uma vaga ao Senado.
Parte da cobertura de centro acrescentou um elemento que equilibra o relato: após a repercussão negativa, Flávio Bolsonaro usou as próprias redes para pedir desculpas à madrasta, dizendo ter por ela 'respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher' e que em nenhum momento teve intenção de ofendê-la. Em outro momento, durante uma transmissão antes do jogo entre Brasil e Escócia pela Copa do Mundo, o senador afirmou que, em 'dia de jogo', nada nem ninguém o aborreceria.
Na divergência de cobertura, veículos de direita tendem a enquadrar o episódio como uma disputa legítima de estratégia eleitoral, em que Michelle surge como guardiã da fidelidade ao legado de Jair Bolsonaro, valorizando o pedido de desculpas de Flávio como gesto de reconciliação e destacando que ela segue favorita a uma vaga no Senado pelo Distrito Federal. Já uma leitura de esquerda enfatiza a fragmentação do bolsonarismo sem Bolsonaro à frente, hoje preso e condenado, e interpreta a briga pública como disputa por espólio político e por cadeiras, mais do que por pauta de governo, sinalizando que a direita chega dividida e sem candidato consolidado para 2026.
O que ainda não se sabe é qual será o desfecho da queda de braço sobre as alianças no Ceará, se Michelle de fato manterá a pré-candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, e como a crise afetará a pré-campanha presidencial de Flávio. Também permanece em aberto se haverá uma reaproximação efetiva entre os dois, já que, segundo relatos citados na cobertura, eles não teriam se falado pessoalmente neste ano.