A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tornou pública nesta quarta-feira, 24 de junho, uma crise com o enteado, o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, pré-candidato à Presidência da República. Em vídeos divulgados nas redes sociais, ela afirmou ter sido humilhada e maltratada pelo parlamentar durante uma conversa telefônica sobre a estratégia do partido no Ceará. Segundo Michelle, o senador foi ríspido, disse que ela havia chegado ontem e não entendia de política, e sugeriu que ela ficasse fora das decisões partidárias. Flávio, por sua vez, negou as acusações e afirmou que nunca desrespeitou ou humilhou uma mulher na vida.
O pano de fundo da disputa é a articulação eleitoral no Ceará. Michelle se opõe à aproximação de setores do PL cearense com o ex-governador Ciro Gomes, hoje no PSDB. Para ela, qualquer aliança com Ciro seria incoerente, porque o político foi um dos principais responsáveis pelo processo que levou à inelegibilidade de Jair Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral e fez ataques duros à família, chamando os filhos do ex-presidente de ovos de serpente. A ex-primeira-dama defende que o campo conservador apoie candidaturas alinhadas ao bolsonarismo já no primeiro turno da disputa estadual.
A cobertura de centro relatou os fatos de forma atribuída, reproduzindo as falas de Michelle entre aspas e registrando a resposta do senador. Flávio reagiu com ironia logo após a divulgação do vídeo, dizendo que em dia de jogo nada nem ninguém o aborrece. Em seguida, negou ter ofendido a madrasta, pediu desculpas caso ela tenha se sentido atingida e elogiou seu trabalho à frente do PL Mulher e o cuidado com o pai. As matérias de centro também destacaram que, apesar do rompimento, Michelle afirma manter apoio à pré-candidatura presidencial do enteado.
Veículos de esquerda enfatizaram um ângulo de gênero e de divisão interna da direita. Para essa cobertura, o episódio escancara um lado machista e autoritário atribuído a Flávio e ao núcleo do clã. O argumento central é o veto a três indicações femininas ao Senado feitas por Michelle, presidente do PL Mulher: a senadora Carol De Toni, de Santa Catarina, a deputada Bia Kicis, do Distrito Federal, e a prefeita Priscila Costa, do Ceará. Michelle lembra que, pela regra dos 30 por cento de candidaturas femininas, o partido teria direito a 17 vagas, e que pediu apenas três. Essa cobertura também ressalta que o desgaste atinge o eleitorado feminino, justamente onde o presidente Lula tem vantagem nas pesquisas.
Veículos de direita enfatizaram a defesa do senador e o caráter de divergência estratégica, não pessoal. Essa cobertura deu destaque à manifestação de Fernanda Bolsonaro, esposa de Flávio, que descreveu o marido como um homem leve, respeitoso, carinhoso e pai dedicado, e afirmou confiar nos valores que guiam sua vida pública e familiar. O recorte de direita também valorizou o argumento de coerência de Michelle contra a aliança com Ciro Gomes, apresentando a recusa como defesa dos valores do campo bolsonarista diante de quem atacou a família.
O que ainda não se sabe é como o PL resolverá o impasse das candidaturas ao Senado e da aliança no Ceará, nem se Michelle e Flávio vão restabelecer o diálogo, interrompido segundo ela desde o fim de 2025. Também não há definição sobre o desfecho da articulação com Ciro Gomes nem sobre o efeito do episódio na pré-candidatura presidencial do senador.