A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou na quarta-feira dois vídeos no Instagram, com mais de quinze minutos no total, em que afirma ter sido desrespeitada e maltratada por telefone pelo enteado, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência. Segundo ela, o senador foi ríspido, disse que ela deveria ficar de fora das decisões do partido e que ela 'havia chegado ontem' e não entendia nada de política. Michelle relatou ter se sentido traída e apunhalada, mas afirmou que se recolheu e que abençoou a pré-candidatura do enteado.
O estopim do desentendimento foi a estratégia eleitoral do PL no Ceará. Michelle se opôs à aproximação do partido com o ex-ministro Ciro Gomes, hoje no PSDB, na disputa pelo governo estadual, e defende o senador Eduardo Girão, do Novo, para o cargo. No centro da crise está também a vaga ao Senado da vereadora Priscila Costa, aliada de Michelle e presidente do PL Mulher no estado, que teria sido preterida pelo partido em favor de Alcides Fernandes, pai do deputado André Fernandes, articulador do acordo com Ciro Gomes.
A cobertura de centro, como a da Folha de S.Paulo e da Agência O Globo, relatou os fatos com paridade entre as versões. Michelle disse que a definição da candidatura de Priscila foi tomada por ela, por Jair Bolsonaro e pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e classificou como traição o eventual descumprimento dessa orientação. Flávio, por sua vez, fez uma live antes do jogo do Brasil contra a Escócia pela Copa do Mundo e, sem citar a madrasta, afirmou que 'hoje, dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece'. Depois, negou tê-la ofendido e pediu desculpas, dizendo ter respeito e reconhecimento por ela e que tentara convidá-la para uma reunião com lideranças femininas conservadoras.
É na interpretação do episódio que as coberturas divergem. Veículos de direita, como a Revista Oeste, enfatizaram a solidariedade dos aliados a Michelle e descreveram sua reação como ato de coragem e coerência, destacando manifestações de apoio da governadora do Distrito Federal, Celina Leão, da senadora Damares Alves e do senador Eduardo Girão. Nessa leitura, Michelle defende a fidelidade às decisões de Jair Bolsonaro e recusa uma aliança com um adversário histórico do ex-presidente. Já veículos de esquerda, como o Diário do Centro do Mundo, enquadraram o caso como uma disputa aberta pelo espólio político do bolsonarismo, com Jair Bolsonaro preso e de saúde fragilizada. Segundo essa cobertura, aliados de Flávio avaliam que Michelle atua na lógica do 'perder-perdendo', preferindo ver o senador sair menor do episódio, e que o conflito mira não só 2026 mas a reorganização da direita em 2030.
No meio do caminho, integrantes do PL ouvidos pela imprensa avaliam que o vídeo de Michelle interrompeu uma tentativa de trégua que vinha sendo costurada por aliados dos dois lados e que o posicionamento enfraquece uma pré-candidatura presidencial já considerada frágil internamente. Michelle negou intenção de disputar a Presidência e disse que sua prioridade neste momento é cuidar da família e do marido.
O que ainda não se sabe é se Michelle vai atuar para atrapalhar a campanha do enteado nos próximos meses, qual será o desfecho da disputa pela vaga ao Senado de Priscila Costa e se a trégua na família será de fato retomada. Os dois devem dividir palanque pela primeira vez no dia 10, no Ceará, no lançamento de candidaturas, mas não está claro como o episódio afetará esse encontro.