O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, não retornará ao posto enquanto o governo argentino não apresentar explicações consideradas satisfatórias sobre os ataques do presidente Javier Milei ao Brasil e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto isso, segundo o chanceler, a embaixada brasileira em Buenos Aires será dirigida por um encarregado de negócios, um degrau abaixo na hierarquia diplomática.
A declaração foi dada em entrevista a uma emissora argentina e explica a decisão anunciada na terça-feira, quando o Itamaraty rebaixou o nível das relações diplomáticas com a Argentina. De acordo com o ministro, foram quatro manifestações consecutivas do presidente argentino no intervalo de uma semana, nas quais ele criticou o Brasil, as instituições brasileiras e a pessoa do presidente. No domingo, o presidente argentino repetiu as ofensas ao dizer que a forma correta de se referir a Lula seria chamá-lo de ladrão.
Toda a cobertura converge nos fatos centrais. A cobertura de centro relatou, de forma descritiva e sem adjetivação própria, que o embaixador fica no Brasil por tempo indeterminado, que a representação passa a ser chefiada por um encarregado de negócios e que a condição para reverter a medida é uma explicação formal do lado argentino. Veículos de direita reproduziram o mesmo relato factual, sem acrescentar enquadramento próprio, mantendo o foco no tom das declarações do presidente argentino e na resposta do Itamaraty. Até o momento, veículos de esquerda não haviam publicado cobertura própria do episódio nesta amostra, de modo que não há framing desse campo a atribuir.
O ponto de contexto que atravessa os dois textos é histórico. O chanceler lembrou que Brasil e Argentina mantêm relações estreitas desde 1985, quando o então presidente José Sarney e o argentino Raúl Alfonsín se encontraram na fronteira e inauguraram o ciclo de integração e cooperação que levaria ao Mercosul. Segundo ele, essa construção é uma relação exemplar que se tentou destruir agora. O ministro afirmou ainda que o presidente brasileiro não trata a relação com outros países pela ótica partidária, e que a questão ideológica é totalmente secundária diante da exigência de respeito e de diálogo de alto nível.
A divergência de leitura fica menos na descrição dos fatos e mais no que cada campo considera o centro da história. Na cobertura factual, o eixo é a decisão administrativa do Itamaraty e a justificativa oficial. No enquadramento que privilegia a ordem institucional e o custo econômico, o eixo tende a ser o preço de rebaixar relações com o principal parceiro do Mercosul e a contradição entre dizer que a ideologia é secundária e reagir a ofensas de um governo ideologicamente oposto. Já a chave de soberania e de defesa das instituições trata a ofensa ao presidente eleito como ataque ao resultado das urnas, e não como divergência corriqueira entre governantes.
Ainda não se sabe qual é o teor exato das quatro manifestações citadas pelo ministro, nem se o governo argentino vai responder ao pedido de explicações e em que prazo. Também não está detalhado o efeito prático do rebaixamento sobre o comércio bilateral, os acordos em vigor, o atendimento consular a brasileiros na Argentina e a agenda do Mercosul. Nenhuma das reportagens traz manifestação oficial de Buenos Aires nem indica quando o embaixador poderia voltar ao posto.