O Ministério da Saúde ampliou, a partir desta terça-feira, 4 de agosto de 2026, a capacidade de teleatendimento do Sistema Único de Saúde voltada a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas online. O serviço, que desde março atendia uma média de 600 pessoas por mês, passou a ter capacidade de até 100 mil atendimentos mensais, uma expansão superior a 16.000%. Segundo a pasta, a mudança foi motivada pela alta procura registrada desde o lançamento.
O atendimento é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, em parceria com o Ministério da Fazenda e a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS. É remoto, sigiloso e funciona como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial, a rede pública que cuida de dependências e transtornos mentais. O governo também divulgou que mais de 1 milhão de pessoas já pediram a autoexclusão do próprio CPF de sites e aplicativos de apostas por meio da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, ligada ao Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas. Entre quem informou o motivo, 35% disseram ter perdido o controle sobre as apostas.
Esses números aparecem sem divergência em toda a cobertura. A cobertura de centro relatou o anúncio de forma descritiva e acrescentou a lista oficial de sinais de comportamento problemático, como mudanças no sono, na alimentação e no humor, mentiras a familiares sobre as apostas, ansiedade e irritabilidade fora do jogo, aumento do consumo de álcool e comprometimento do orçamento pessoal ou familiar. O mesmo material aponta fatores de risco, entre eles a exposição precoce às apostas, a facilidade de acesso às plataformas, o histórico de depressão e ansiedade, a impulsividade, ambientes que romantizam o jogo e situações de isolamento e vulnerabilidade social.
A diferença de enquadramento aparece na ênfase. Veículos de esquerda destacaram a dimensão coletiva do problema e a resposta do Estado, tratando o salto na oferta de atendimento como reconhecimento de que a dependência em apostas virou questão de saúde pública, com o SUS absorvendo um dano associado à expansão de um setor privado. Veículos de direita não haviam registrado o caso até o fechamento desta reportagem, de modo que ficaram fora do noticiário os argumentos que esse campo costuma levantar em pautas assim: quanto custa a ampliação, se a capacidade anunciada se converte em atendimento efetivo e como se concilia a arrecadação pública sobre as apostas com o financiamento do tratamento de quem adoece por elas. A própria participação do Ministério da Fazenda na iniciativa coloca essa tensão no centro da política.
O que ainda não se sabe é boa parte do essencial. Nenhuma das reportagens informa o custo da expansão, a origem dos recursos, quantos profissionais foram contratados ou realocados para sustentar cem mil atendimentos por mês, nem qual foi o resultado dos atendimentos feitos entre março e agosto, se houve encaminhamento efetivo à Rede de Atenção Psicossocial e qual o tempo de espera. Também não há avaliação independente dos dados divulgados pelo governo, nem informação sobre obrigações impostas às plataformas de apostas diante do volume de pedidos de autoexclusão. Todas as informações disponíveis até agora vêm de uma única origem, o próprio governo federal.