Mais da metade das brasileiras já sentiu de algum modo o avanço das casas de apostas online. Entre elas, 42% apostam ou já apostaram, e outras 12%, que nunca jogaram, dizem sofrer os efeitos do vício de parceiros ou parentes. Entre as mulheres que apostam, as que têm filhos jogam cerca de 1,6 vez mais do que as sem filhos, um recorte que a pesquisa lê como sinal de que, para essas mães, apostar tem menos relação com lazer ou adrenalina e mais com a tentativa de fechar as contas do mês.
Os dados são do estudo Mulheres e Bets, divulgado pelo estúdio de pesquisa Clarice em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA. O levantamento combina 20 grupos qualitativos, com 60 mulheres e homens, e uma enquete nacional com 2.008 entrevistados, realizada em julho. A cobertura de centro apresentou primeiro esses números e a metodologia, e situou o fenômeno na linha do tempo do setor: o jogo de azar online foi legalizado no Brasil em 2018, ganhou tração durante a pandemia de Covid, capturou mais de R$ 10 bilhões das famílias brasileiras pela primeira vez em 2021, segundo a consultoria H2 Gambling Capital, e só foi regulamentado em 2023, quando o cassino digital entrou nas regras.
Há convergência entre os dois registros disponíveis sobre os fatos centrais. Beatriz Della Costa, cofundadora da Clarice e porta-voz do estudo, resume que as mães não apostam para levar vida de luxo, e sim para pagar o bolo de aniversário, o material escolar ou um delivery, algo que funciona como uma terceira renda. O relatório também registra que mulheres solteiras reconhecem o problema e param com mais facilidade, enquanto as mães sentem custo emocional maior, porque apostar coloca em risco o papel social que lhes foi atribuído. Nos encontros dos Jogadores Anônimos, entidade de acolhimento de pessoas com problemas relacionados ao jogo, a presença feminina cresceu de forma perceptível, chegando a quase um terço da sala na visita mais recente.
O relato mais duro da reportagem é o da catarinense Bianca Araújo, 38 anos, que conheceu as apostas pelo ex-marido e pelas redes sociais no fim da pandemia e perdeu casamento, economias e moradia entre 2021 e 2023. Ela contabiliza prejuízo de mais de R$ 500 mil, com empréstimos tomados no CPF e no CNPJ e a venda de uma caminhonete por R$ 210 mil, quantia consumida em uma semana. Está abstêmia há três anos. Também há consenso sobre a ressalva clínica: o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, responsável pelo ambulatório de dependências comportamentais do Proad, da Unifesp, afirma que o uso cresce e o uso problemático também, mas que nem todo uso é problema, e que a dependência propriamente dita atinge parcela menor.
As ênfases divergem a partir daí. Veículos de esquerda destacaram o contexto econômico e regulatório que abriu espaço para as plataformas: mulheres que perderam renda, emprego e estabilidade encontraram a promessa de dinheiro rápido num período, entre 2019 e 2025, em que o mercado corria sem regras de publicidade nem de prevenção ao vício, com influenciadores anunciando caça-níqueis como fonte de renda extra e falsas estratégias vencedoras, sem fiscalização do governo. Nessa leitura, a recomendação do relatório, restringir primeiro o cassino digital, e não as apostas esportivas, é a medida mínima, porque o cassino é a modalidade mais usada por mulheres e a de retorno mais imediato, portanto a porta de entrada mais rápida para o vício. A cobertura de centro reproduziu essa recomendação, mas deu espaço à resposta do setor: associações como a Associação Nacional de Jogos e Loterias afirmam que os sites autorizados pelo governo têm mecanismos para evitar o acesso de pessoas dependentes e enfrentam competição injusta com casas ilegais, que não pagam a licença de R$ 30 milhões nem arcam com custos regulatórios.
Até o momento, veículos de direita não publicaram cobertura própria sobre o estudo. O eixo que costuma organizar esse campo, e que já aparece pela voz das associações citadas na reportagem, é o de que a resposta está na fiscalização do mercado ilegal e na aplicação das regras existentes, não em novas restrições sobre adultos que apostam sem desenvolver comportamento problemático.
O que ainda não se sabe é considerável. Não foi divulgada a margem de erro do levantamento nem quantas mulheres compõem a amostra dos 2.008 entrevistados.