O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e representantes do Ministério das Relações Exteriores devem se reunir na próxima semana com o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, para retomar as negociações comerciais entre os dois países. A data do encontro ainda será acertada pelas equipes dos dois governos. A reabertura do canal foi destravada depois de um telefonema de 1 hora e 20 minutos entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na manhã de sexta-feira, 21 de agosto de 2026.
Segundo o Palácio do Planalto, a conversa transcorreu de forma cordial. Lula defendeu a retomada das negociações e afirmou que as justificativas apresentadas pelo governo norte-americano para a adoção das novas tarifas sobre produtos brasileiros são infundadas. Entre os argumentos usados por Washington estão desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, o sistema de pagamentos Pix, etanol e importações de produtos associados a trabalho forçado. O presidente brasileiro sustentou que as tarifas prejudicam os dois lados e apresentou o diálogo como caminho para preservar a relação comercial. Trump concordou com a necessidade de manter os vínculos comerciais e sinalizou a retomada do contato entre as equipes. Logo depois da ligação, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, procurou o Mdic. Em nota conjunta, o Mdic e o Itamaraty afirmaram que a sinalização dos dois presidentes cria uma nova oportunidade de solução negociada para o impasse.
A conversa não ficou restrita ao comércio. Lula e Trump trataram de segurança e de cooperação no combate ao crime organizado. O presidente brasileiro defendeu atuação conjunta dos dois países, mas afirmou que as organizações criminosas, embora pressionem populações vulneráveis, não devem ser equiparadas a organizações terroristas. Ele citou medidas de asfixia financeira que resultaram na apreensão de aproximadamente R$ 17 bilhões, além da Lei Antifacção e da criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus. Trump, segundo o Planalto, manifestou disposição de ampliar a cooperação e disse que indicará integrantes de alto escalão para dar continuidade às tratativas. Os dois presidentes também falaram sobre as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, defenderam solução negociada para o conflito entre Rússia e Ucrânia e ouviram de Lula uma crítica à inação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, com sugestão de reunião extraordinária do órgão.
A base factual é praticamente idêntica em toda a cobertura, porque o relato saiu de uma mesma apuração de agência replicada pelos veículos. As diferenças aparecem no enquadramento. Veículos de esquerda publicaram o texto sem contraponto e destacaram a rejeição do presidente ao rótulo de terrorismo para as facções e a afirmação de que as alegações tarifárias são infundadas, elementos lidos como defesa de soberania. A cobertura de centro relatou a cronologia dos fatos, o tempo da ligação, os nomes dos negociadores e a ausência de data definida para a reunião, sem atribuir intenção a nenhum dos lados. Veículos de direita reproduziram o mesmo conteúdo, mas acrescentaram um enquadramento eleitoral, sugerindo que o presidente busca projetar relevância na diplomacia internacional às vésperas da disputa de 2026, e deslocaram a matéria para a editoria de economia, onde o foco recai sobre o custo das tarifas para o setor produtivo.
O que ainda não se sabe é o essencial da negociação. Não há data marcada para a reunião entre o Mdic, o Itamaraty e o USTR, nem pauta formal divulgada. Não foi informado quais tarifas podem ser suspensas ou reduzidas, em que percentual e para quais produtos, nem se o governo brasileiro aceitará discutir os pontos levantados por Washington sobre Pix, etanol e propriedade intelectual. Também não se sabe quem Trump indicará para conduzir a cooperação de segurança, nem como os dois governos tratarão a divergência sobre a classificação das facções criminosas. A versão norte-americana sobre o teor da conversa não foi divulgada até a publicação dos textos.