A crise entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), veio a público na terça-feira, 1º de setembro de 2026, quando Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que ele próprio havia encomendado. O documento trata de mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso e suspeito de comandar uma organização criminosa que teria praticado crimes contra o sistema financeiro por meio do Banco Master, e de um contato salvo no celular dele com o nome de Alexandre de Moraes. O relatório também detalha contratos de R$ 129 milhões entre Vorcaro e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Em nota, o escritório afirmou que não havia previsão de atuação no STF nem impedimento legal para a contratação, e que Moraes jamais julgou causa envolvendo o Banco Master. O ministro não se manifestou publicamente.
Mendonça, relator do inquérito do Banco Master desde fevereiro deste ano, deu ainda prazo de cinco dias para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se pronunciasse sobre a abertura de uma investigação contra o colega. Na mesma noite, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a anulação do procedimento, sob o argumento de que o plenário do STF deveria ter sido consultado antes da solicitação do relatório à PF. Cabe agora ao plenário decidir tanto sobre o pedido de anulação quanto sobre a eventual apuração contra Moraes.
A cobertura de centro reconstruiu a origem da rivalidade e tratou o episódio como crise institucional sem precedentes. Relatou o atrito de 2023 no julgamento do primeiro réu dos atos de 8 de janeiro, a transferência da relatoria do caso Master depois que o ministro Dias Toffoli abriu mão do processo, e a decisão de Mendonça de proibir a equipe da PF designada ao inquérito de repassar informações à cúpula da corporação, medida que desagradou o comando da polícia. Nessa leitura, os ritos daqui em diante são incógnitos, e os especialistas ouvidos evitam prever desfecho.
Veículos de esquerda deram ao mesmo fato um enquadramento de disputa de poder. Descreveram a iniciativa de Mendonça como ofensiva deliberada contra Moraes, contra a PGR e contra a direção da PF, com potencial de contaminar instituições muito além do Supremo e de empoderar setores autoritários do Congresso. Nessa cobertura, o ministro que relatou a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado é o alvo, e a divulgação é apresentada como munição política que beneficia a extrema direita, não como ato de transparência.
Não há, no conjunto analisado, artigo de veículos de direita sobre este recorte. A leitura provável desse campo, a partir dos mesmos fatos, enfatizaria o dever de prestação de contas de um ministro do Supremo, a existência de contratos milionários entre empresas do investigado e o escritório da mulher de Moraes, e a tese de que o pedido de anulação apresentado pela PGR encerra o caso antes de qualquer apuração.
O que ainda não se sabe é o essencial. Moraes não respondeu publicamente, o conteúdo integral das mensagens atribuídas a ele e ao banqueiro não foi divulgado, e não há data marcada para o plenário decidir sobre a anulação ou sobre a investigação. Também não está estabelecido se houve de fato repasse de informação sigilosa, nem qual rito se aplica a um pedido de apuração contra integrante da própria Corte.