O motorista do candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad, Alessandro Caseri, prestou depoimento à Polícia Civil na tarde de segunda-feira, 17 de agosto de 2026, e manteve a versão de que foi alvo de uma abordagem irregular de policiais militares na noite de 11 de agosto, no bairro da Vila Mariana, zona sul da capital paulista. Acompanhado de advogado na 2ª Delegacia Seccional de Polícia, ele descreveu três contatos diferentes com viaturas da Força Tática: em um deles, teria sido fechado e recebido luz de lanterna sobre o para-brisa; em outro, uma viatura emparelhou com o carro sem ordem de parada e sem sirene. Foi então, segundo o relato, que ele decidiu estacionar em frente a um hotel na rua Joinville, local que considerava seguro pela quantidade de câmeras. Ali, três policiais teriam desembarcado e ficado na calçada, e um deles teria dito a palavra 'vaza'.
O episódio foi apresentado pelo candidato do PT como possível tentativa de intimidação e motivou a abertura de inquéritos do Ministério Público Federal e da Polícia Civil de São Paulo. Na manhã seguinte ao ocorrido, Haddad afirmou a jornalistas que houve uma 'abordagem fora do padrão' e que o motorista fora seguido por uma viatura da corporação. O caso ganhou peso adicional por acontecer às vésperas do início oficial da campanha eleitoral, com o governador Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição, como adversário direto do denunciante político.
Toda a cobertura converge em alguns pontos materiais. Uma câmera registrou o carro do motorista estacionado em frente ao hotel por cerca de vinte minutos, com uma viatura da Polícia Militar emparelhando e desacelerando até sair do quadro. Investigadores apontam divergência de horários: o depoimento afirma que ele deixou o local por volta das 23h09, enquanto as imagens mostram o veículo saindo às 22h26, passando pela Avenida 23 de Maio quatro minutos depois e pela Radial Leste às 22h34. Também é consenso que o motorista declarou não ter intenção de acusar os policiais de abuso de poder e que não registrou boletim de ocorrência, além de ter pedido que a polícia verificasse outra câmera, na rua Victor Brecheret, que segundo ele teria captado a cena.
A divergência aparece no que cada cobertura escolheu colocar em primeiro plano. Veículos de direita organizaram a narrativa em torno do descompasso entre o relógio das câmeras e o relato do depoente, encerrando as matérias com a declaração do governador de que as apurações não mostraram 'absolutamente nada' e que se trataria de falsa comunicação, hipótese que pode levar à responsabilização do motorista. A cobertura de centro deu mais espaço ao conteúdo do próprio depoimento e ao contraditório: registrou que a informação sobre as contradições partiu de fonte que falou sob reserva, que o advogado do motorista se recusou a comentar, que o depoente diz não ter vínculo político com o candidato e que Haddad reclamou da demora em ouvir alguém que havia pedido 'socorro do Estado'. Nenhum veículo de esquerda do acompanhamento publicou sobre o episódio até o fechamento desta análise, de modo que o argumento de que uma denúncia de intimidação policial em campanha não deveria ser encerrada por conclusão preliminar do próprio governo estadual aparece apenas pela boca do candidato, e não como enquadramento editorial.
Há também uma disputa técnica embutida no relato. A versão do motorista sugere que a abordagem teria ocorrido fora do campo enquadrado pela câmera do hotel, o que explicaria a ausência de desembarque nas imagens divulgadas. O governo estadual sustenta o contrário, com base na análise de mais de 70 câmeras e no rastreamento por GPS das viaturas, que indicariam veículos diferentes em patrulhamento ou em retorno aos batalhões.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há resultado dos inquéritos do Ministério Público Federal e da Polícia Civil, nem prazo divulgado para conclusão. A câmera da rua Victor Brecheret, indicada pelo próprio depoente, não teve o conteúdo tornado público. Não foram apresentados os registros de GPS que sustentariam a versão oficial, nem a identificação das guarnições que circulavam pela região naquela noite. E não está definido se a divergência de horários será tratada como imprecisão de memória ou como base para responsabilizar quem prestou a informação.