A pouco mais de três meses das eleições gerais de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral apresentou um balanço da sua preparação para o pleito. O presidente da Corte, ministro Kássio Nunes Marques, detalhou as ações do primeiro semestre a 94 dias do primeiro turno. Entre fevereiro e junho, o tribunal realizou 88 sessões de julgamento e analisou 1.656 processos, sendo 639 deles apenas nos últimos 50 dias.
A veículos de direita, como o Estadão, o ministro destacou o avanço das tratativas com plataformas digitais para renovar os memorandos de entendimento voltados ao enfrentamento da desinformação, com assinatura prevista para 16 de julho. Nunes Marques também citou o lançamento do Manual do Eleitor, disponível no Portal da Justiça Eleitoral e em processo de tradução para línguas indígenas, e o Programa Seu Voto Importa, que prevê transporte gratuito e sem interferência política a pessoas com deficiência e a moradores de comunidades remotas no dia da votação. O balanço mencionou ainda o fortalecimento da atuação conjunta entre o TSE e os tribunais regionais e a participação da Justiça Eleitoral em programas internacionais de observação, incluindo a eleição contestada na Colômbia.
A cobertura de centro, como a do Correio do Povo com base em material do Estadão Conteúdo, detalhou um passo específico dessa articulação: o TSE convocou para 14 de julho uma reunião com as principais big techs do país. O objetivo é firmar um acordo de colaboração para combater notícias falsas com potencial de impactar a disputa. Os ministros pretendem levar às plataformas a preocupação com os chamados deep nudes, conteúdos manipulados que simulam nudez, geralmente de mulheres. A avaliação de interlocutores da Corte é que as empresas não estão agindo com contundência suficiente para barrar esse tipo de material. Para a reunião, Nunes Marques convidou a ministra Estela Aranha, ex-secretária de Direitos Digitais do Ministério da Justiça e indicada ao TSE pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com experiência em inteligência artificial. As resoluções aprovadas em março já proíbem ferramentas de IA de manipular imagens de candidatos e de recomendar ou priorizar partidos, e retomam a lógica dos acordos firmados em 2022, quando plataformas como Google, Meta, TikTok e Kwai se comprometeram a remover rapidamente postagens enganosas.
É nesse ponto que a cobertura se divide em ênfases. Veículos de esquerda tendem a enquadrar as medidas como reforço do papel do Estado na proteção do processo democrático e como defesa de grupos vulneráveis, sobretudo mulheres alvo de deep nudes e eleitores com deficiência ou em áreas remotas beneficiados pela inclusão. Já a leitura de setores de direita acompanha o movimento com atenção ao risco de excessos na moderação de conteúdo e à proximidade entre a Corte e o Executivo, simbolizada pela presença de uma ministra indicada por Lula na interlocução com as empresas de tecnologia.
O pano de fundo eleitoral aparece nas colunas analíticas que interpretaram as pesquisas divulgadas na semana. O levantamento Atlas/Bloomberg apontou Lula com 46,3% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36,6% de Flávio Bolsonaro, e vantagem de 48,8% a 42,3% no segundo turno. Já a pesquisa BTG/Nexus mostrou um quadro mais apertado, com Lula em 47% e Flávio Bolsonaro em 44%, configurando empate técnico. A interpretação de centro ressalta que, apesar do favoritismo do presidente, a disputa permanece aberta e polarizada, com o governo convivendo com desaprovação elevada e a oposição enfrentando turbulências internas no campo bolsonarista.
O que ainda não se sabe é quais plataformas efetivamente assinarão os novos memorandos e qual será a resposta das big techs à cobrança do TSE sobre deep nudes. Também não há detalhamento sobre como as regras contra o uso de inteligência artificial serão fiscalizadas na prática ao longo da campanha, nem garantia de que os cenários apontados pelas pesquisas se manterão até outubro.