O governo brasileiro passou a examinar a ligação profissional de Daniel Perez, indicado pelos Estados Unidos para chefiar a embaixada americana em Brasília, com uma emissora de televisão que difundiu alegações falsas de fraude na eleição presidencial americana de 2020. Perez foi aprovado pelo Senado dos Estados Unidos na sexta-feira anterior à publicação do caso, mas a chegada dele ao posto depende do consentimento do país que o recebe, um trâmite diplomático que pode levar meses e que está em exame no Itamaraty.
O ponto sob análise é um documento que o indicado entregou ao Senado americano em 12 de maio, com a lista de seus vínculos e pagamentos recebidos de empresas privadas. Nele, Perez informou ter recebido dinheiro da emissora em 2025, mesmo ano em que o canal fechou acordo de 67 milhões de dólares para encerrar um processo por difamação movido pela fabricante de urnas eletrônicas Dominion. Antes disso, a mesma emissora já havia pago 40 milhões de dólares para encerrar ação semelhante movida por outra fabricante de urnas, a Smartmatic. Um juiz do Tribunal Superior de Delaware chegou a sentenciar que houve difamação antes de as partes fecharem acordo. Perez, que era deputado estadual, declarou que, como advogado, tem a prerrogativa de escolher e de recusar trabalhos que suscitem preocupações éticas. Em 2025, ele recebeu mais de 1,1 milhão de dólares por serviços jurídicos a empresas privadas, e menos de 4% de sua renda veio do mandato parlamentar.
O exame chega em um momento de atrito aberto. A Casa Branca avisou que ampliará retaliações contra o governo brasileiro caso o visto do indicado não saia de forma imediata, e na semana anterior já havia revogado em parte o visto da embaixadora do Brasil em Washington. Interlocutores do alto escalão em Brasília pedem cautela: querem saber se o indicado fez declarações públicas sobre as urnas americanas e qual foi exatamente a natureza do serviço jurídico prestado, antes de chegar a qualquer conclusão. O Itamaraty limita-se a informar que o pedido está em análise.
Até o momento, apenas um veículo cobriu essa indicação, e ele se situa à esquerda do espectro editorial: o texto enquadra o episódio como pressão externa sobre a soberania brasileira e sublinha o histórico de desinformação eleitoral do grupo político que escolheu o diplomata. A cobertura de centro presente neste agrupamento trata de outro assunto, uma série sobre o papel do cooperativismo na economia brasileira, e não aborda a indicação. Não há, até aqui, cobertura de veículos de direita sobre o caso, de modo que não é possível atribuir a esse campo qualquer enquadramento específico sobre o episódio.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não está esclarecido qual foi, na prática, o trabalho do indicado para a emissora, nem se ele defendeu publicamente as alegações de fraude eleitoral. Também não há prazo anunciado para que o governo brasileiro conceda ou negue o consentimento, nem definição sobre o alcance das retaliações prometidas caso a resposta demore. A própria natureza do pagamento registrado no documento oficial permanece sem detalhamento público.