A cúpula de líderes da Otan em Ancara, na Turquia, terminou com discursos de unidade entre os aliados, mas reacendeu divergências antigas entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os parceiros europeus. O encontro ocorreu em meio a dois conflitos que pressionam a aliança: a guerra na Ucrânia e a escalada entre Estados Unidos e Irã, cujo cessar-fogo chegou ao fim justamente durante os dias da reunião, quando forças americanas retomaram ataques ao território iraniano.
A cobertura de centro, feita pela RFI, relatou que, apesar do tom conciliador adotado por Trump em Ancara, ele voltou a criticar publicamente os aliados europeus e reafirmou que a Groenlândia deveria ficar sob controle americano. Na declaração conjunta, os líderes reforçaram o compromisso com o Artigo 5º da Otan, cláusula de defesa coletiva que prevê socorro mútuo em caso de ataque a um país-membro. Ainda segundo essa cobertura, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, defendeu os ataques recentes ao Irã como resposta necessária à violação do cessar-fogo pelo próprio país, e projetou um futuro de maior protagonismo europeu dentro da aliança. Um dado chama atenção: hoje, 60% do armamento comprado pela União Europeia vem dos Estados Unidos, e 73% dos europeus, segundo pesquisas citadas, acreditam que o continente deve seguir caminho próprio em matéria de defesa.
Veículos de direita tenderiam a destacar a fala de Trump sobre tarifas, que ele voltou a defender publicamente após a cúpula, ao afirmar que a política tarifária tem estimulado uma onda de investimentos na indústria americana. Esse enquadramento reforça a leitura de que a pressão americana por mais gastos militares dos aliados e a defesa do protecionismo comercial caminham juntas como estratégia de fortalecimento econômico e de segurança dos Estados Unidos.
Já veículos de esquerda tenderiam a enfatizar os riscos da escalada: o fim do cessar-fogo com o Irã em meio à cúpula, a insistência de Trump sobre a Groenlândia como ameaça à soberania de um território autônomo, e a corrida armamentista europeia que pode acompanhar o afastamento gradual da dependência americana, com custos sociais e fiscais para os países do bloco.
Um ponto que ganhou destaque foi o encontro entre Trump e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, no qual o americano indicou que deve autorizar a fabricação de mísseis Patriot pela Ucrânia, equipamento considerado essencial para interceptar ataques russos e que Kiev pedia havia meses.
O que ainda não está claro é o ritmo real da autonomia militar europeia. Especialistas ouvidos pela reportagem de centro apontam que a Europa segue dependente dos Estados Unidos em áreas como defesa aérea, ataques de longo alcance, satélites e inteligência, e que integrar essas capacidades em nível continental é um processo que deve levar anos, sem prazo definido.