A Polícia Federal tem em mãos mensagens trocadas entre Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a lobista Roberta Luchsinger, investigada por suspeita de participação no esquema de fraudes contra o Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS. Em um diálogo datado de 22 de março de 2024, a lobista escreve que o nível dos dois passou a ser outro e que o futuro deles é a Suíça. O filho do presidente responde na sequência. São as primeiras conversas diretas entre os dois que vieram a público.
Na mesma troca de mensagens, Fábio Luís Lula da Silva menciona reuniões com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que à época era chefe de gabinete do presidente e cuidava da agenda com ministros, parlamentares e empresários, e com Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde. A apuração corre dentro de três inquéritos abertos no Supremo Tribunal Federal que investigam suspeita de tráfico de influência no governo federal, e uma das linhas é justamente a relação com a lobista, que tentou fechar contratos com a União.
Os dois lados da cobertura convergem no essencial. Ambos registram que Roberta Luchsinger recebeu de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, repasses que somam R$ 1,5 milhão, e que em uma das transferências o empresário disse a um interlocutor que o dinheiro se destinava ao filho do rapaz, expressão que a Polícia Federal considera possível referência ao filho do presidente. Também convergem sobre a relação da lobista com o ex-chefe de gabinete: ela comprou joias que ele pediu para presentear familiares no Dia das Mães de 2024, em conversa registrada em 29 de abril daquele ano. Os dois relatos trazem ainda a nota da defesa, que contesta a divulgação parcial das mensagens, alega possível violação do dever de sigilo funcional, crime previsto no artigo 325 do Código Penal, e afirma que só vai se manifestar nos autos após acesso integral aos dados obtidos pelas quebras de sigilo.
As ênfases divergem. Veículos de direita construíram o texto em torno da cadeia de acesso ao governo: detalharam que Swedenberger Barbosa teria facilitado a entrada do Careca do INSS no Ministério da Saúde para viabilizar um contrato de aquisição de cannabis medicinal pelo Sistema Único de Saúde, descreveram uma disputa em que Fernando Bittar, ex-sócio do filho do presidente e proprietário formal do sítio de Atibaia, teria usado o nome dele para tentar um negócio na Telebras, e reservaram espaço para a escolha das joias de diamante. A cobertura de centro deu peso maior ao contraditório e ao rastro financeiro fechado: informou que os repasses ao ex-chefe de gabinete somaram R$ 217 mil ao longo de 2024, que a fatura de uma das joias foi de R$ 9,2 mil, que ele devolveu R$ 249 mil em abril deste ano, depois de a Polícia Federal já ter apreendido o celular da lobista, e que classificou o dinheiro como empréstimo já quitado. Até o momento, nenhum veículo de esquerda havia publicado sobre o caso no conjunto analisado, e o argumento de instrumentalização eleitoral das instituições chega ao leitor pela nota dos advogados, não por cobertura própria desse campo.
O que ainda não se sabe é o mais relevante. Não há, no material divulgado, comprovação de que qualquer valor tenha chegado ao filho do presidente, nem definição sobre a existência de contrapartida em contrato público. Não se sabe se a joia negociada chegou a ser comprada ou entregue, nem qual foi o desfecho do contrato de cannabis medicinal e do negócio na Telebras. Também segue em aberto quem teve acesso ao material sigiloso e o repassou à imprensa, ponto que a defesa quer transformar em investigação própria. Nenhum dos investigados foi denunciado até agora, e a lobista, por meio de seu advogado, não comentou o caso em razão do sigilo do inquérito.