A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que um dos inquéritos sobre a atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, seja enviado à primeira instância da Justiça. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, sustenta que não há, entre os investigados, autoridade com foro privilegiado que justifique a permanência do caso na Corte. A decisão final cabe ao ministro André Mendonça, relator de dois dos três inquéritos abertos pela Polícia Federal (PF) sobre o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O terceiro está sob a relatoria do ministro Flávio Dino.
As apurações nasceram da investigação sobre as fraudes nos descontos de aposentados do INSS, caso em que há parlamentares envolvidos. Foi ali que o nome de Fábio Luís apareceu, ligado à lobista Roberta Luchsinger e ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Uma das linhas apura a tentativa de vender ao Ministério da Saúde um projeto de medicamentos à base de canabidiol; outra trata da influência sobre a Dataprev, empresa de tecnologia que processa dados do INSS. A suspeita levantada pela Polícia Federal é de tráfico de influência, crime que Fábio Luís nega. As defesas dele e de Luchsinger afirmam que não houve irregularidade.
A cobertura de centro relatou o encadeamento processual com detalhe. No fim de julho a investigação inicial foi fatiada, e a PGR se manifestou a favor do desmembramento; no sorteio de redistribuição, porém, dois dos inquéritos voltaram ao gabinete de Mendonça, e um seguiu para Dino. Em parecer de 27 de julho, a Procuradoria já havia concordado com a Polícia Federal sobre a separação dos casos. Documentos e diálogos reunidos pela investigação mostram que Luchsinger fez ao menos 40 visitas a ministérios e à Presidência entre 2023 e 2024, das quais apenas uma consta das agendas públicas apesar da obrigação legal; que ela dizia falar em nome de Fábio Luís, com a frase 'Eu sou o Fábio'; que negociava 20% de remuneração no projeto de cannabis medicinal; e que fez pagamentos de até R$ 249 mil ao ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro, valor que ele afirma ter devolvido depois do início das apurações. O negócio com o Ministério da Saúde não foi fechado.
Veículos de direita enfatizaram outro ângulo: o de que o pedido da PGR seria a segunda tentativa de afastar Mendonça da condução do caso, leitura atribuída a integrantes do tribunal e apresentada como avaliação de bastidores, não como posição oficial da Corte ou da Procuradoria. Nessa chave, a insistência em levar o caso para fora do Supremo teria menos a ver com competência do que com a escolha de quem julga o filho do presidente. Já veículos de esquerda praticamente não cobriram este capítulo, e o enquadramento mais próximo desse polo aparece pela voz da defesa: o advogado Marco Aurélio de Carvalho denuncia vazamentos seletivos e fala em instrumentalização do sistema de Justiça com finalidade eleitoral, comparando o método ao da Operação Lava Jato. A própria Luchsinger afirma que criminalizar relações de amizade afronta o Estado Democrático de Direito. Vale registrar que a defesa apoia o pedido da PGR, por entender que não há foro nem verba pública em jogo.
O que se sabe do lado do relator vem de seus interlocutores. O argumento para manter os inquéritos no Supremo é que as mensagens encontradas no celular da lobista citam autoridades com prerrogativa de foro, e que a Polícia Federal ainda não examinou esse conteúdo a fundo. O entorno do ministro invoca o precedente do caso do Banco Master, que começou na primeira instância e subiu à Corte quando surgiram menções a autoridades com foro, e estranha que nem a PF nem a Procuradoria tenham defendido a primeira instância no momento em que enviaram os processos ao Supremo. Mendonça também determinou que a Polícia Federal apure o vazamento das conversas divulgadas pela imprensa.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há data para a decisão sobre a competência, nem definição sobre se as menções a autoridades nos diálogos se sustentam depois da análise técnica do material. Também não se sabe se o inquérito sob relatoria de Flávio Dino seguirá o mesmo destino do que está com Mendonça, quem vazou as conversas, e se a investigação chegará a uma denúncia formal. Enquanto isso não se resolve, permanece indefinido o juízo que vai julgar um caso que envolve o nome do presidente da República em ano eleitoral.