Ciro Gomes, pré-candidato do PSDB ao governo do Ceará, afirmou nesta quinta-feira que não assistiu e não pretende assistir ao vídeo de 27 minutos em que Michelle Bolsonaro expôs publicamente os atritos com o enteado, o senador Flávio Bolsonaro. "Eu juro que não vi o vídeo. E não vou ver", declarou Ciro a jornalistas durante um evento do agronegócio em Fortaleza. Para o ex-governador, o episódio é "uma questão do PL nacional" que envolve "coisas muito mais complexas" do que a política local. Ciro disse ainda estar afastado da política nacional e empurrou a solução do impasse para o próprio partido.
A crise tem raiz na aliança costurada entre o PL cearense, comandado pelo deputado André Fernandes, e o grupo de Ciro Gomes, com o objetivo de barrar a reeleição do governador Elmano de Freitas, do PT. O movimento desagradou Michelle Bolsonaro, que defende o apoio à pré-candidatura de Eduardo Girão, do Novo, por motivos de coerência ideológica. No vídeo, a ex-primeira-dama relatou ter sido maltratada e humilhada por Flávio em uma ligação telefônica e atribuiu a Ciro Gomes a responsabilidade pela inelegibilidade de Jair Bolsonaro.
A cobertura de centro, representada pela Folha de S.Paulo, relatou os fatos de forma equilibrada, detalhando as queixas de Michelle, o impasse sobre as vagas ao Senado entre nomes ligados a André Fernandes e a vereadora Priscila Costa, e a posição de Ciro de não alimentar a polêmica. Veículos de esquerda, como CartaCapital, Diário do Centro do Mundo e Revista Fórum, enfatizaram o pragmatismo e a fragmentação da direita: lembraram que o mesmo PL que construiu uma narrativa contra Ciro agora se alia a ele por conveniência eleitoral, e recuperaram o histórico da condenação de Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral em junho de 2023, por 5 votos a 2, sob acusação de abuso de poder político e disseminação de informações falsas sobre o sistema eleitoral. A representação que originou o processo partiu do PDT, partido ao qual Ciro era filiado.
O racha ganhou novos capítulos com a entrada de Eduardo Bolsonaro, que provocou a madrasta nas redes sociais e confirmou a aliança com Ciro, condicionando o apoio à necessidade de "um voto" para aprovar a anistia ao pai. "Não se faz política com o fígado", escreveu o deputado. André Fernandes, por sua vez, reafirmou que vota em Ciro Gomes e descartou apoiar Eduardo Girão. Em entrevista recente à revista Veja, Ciro chegou a comparar Jair Bolsonaro a Lula e disse votar em Aécio Neves, pré-candidato do PSDB, distanciando-se de Flávio. Embora a leitura de esquerda enfatize a hipocrisia do campo bolsonarista e a de direita destaque a tensão entre fidelidade ideológica e cálculo pragmático, todos os veículos convergem no diagnóstico de uma divisão pública e profunda no entorno de Jair Bolsonaro às vésperas da eleição de 2026.
O que ainda não se sabe é como o PL nacional vai resolver o impasse das vagas ao Senado no Ceará, se a aliança com Ciro será mantida no primeiro turno ou adiada para um eventual segundo turno, como defende Michelle, e qual será o desfecho da disputa interna sobre a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.