Os registros de producao, posse ou distribuicao de material de abuso sexual infantil cresceram 25% no Brasil em 2025, segundo analise de registros policiais publicada no 20o Anuario Brasileiro de Seguranca Publica, divulgado em 23 de julho. Foi a primeira vez que o estudo mediu esse tipo de crime, revelando a dinamica de uma violencia que ocorre sobretudo no meio digital. Ate o momento, apenas um veiculo, de perfil de centro, cobriu o caso, com uma reportagem apoiada em dados oficiais e na fala de um pesquisador do Forum Brasileiro de Seguranca Publica.
Os numeros dao a dimensao do problema. Em 2025, foram registrados 4.063 casos envolvendo vitimas de ate 17 anos, aumento de 25,3% em relacao aos 3.280 casos de 2024. Entre jovens de 18 e 19 anos, os registros passaram de 181 para 265, alta de 49%. As vitimas sao majoritariamente meninas: 84,2% do total, e 78,3% tem entre 12 e 17 anos, com a incidencia crescendo na entrada da adolescencia.
Um dos dados que mais chamou a atencao dos pesquisadores foi o perfil dos autores. Em 34,2% dos casos, ou seja, um a cada tres, os responsaveis sao adolescentes. Em 86,5% dos registros havia apenas autores do sexo masculino. Segundo o coordenador de Infancia e Juventude do Forum, trata-se muitas vezes de uma violencia entre pares, em que tanto vitimas quanto autores sao adolescentes.
A cobertura descreve o fenomeno como associado a ampliacao do acesso a redes sociais, plataformas de mensagens e comunidades virtuais que, segundo o relatorio, difundem misoginia, sexualizacao precoce e discursos de dominacao masculina. Para os pesquisadores citados, o enfrentamento exige uma compreensao mais ampla das transformacoes digitais e a regulacao das big techs, ja que a demora na construcao de mecanismos regulatorios teria permitido a consolidacao de espacos virtuais marcados por violencias persistentes contra criancas, adolescentes e mulheres.
O Anuario aponta ainda um aumento dos crimes cometidos dentro do ambiente familiar. Os registros de maus-tratos chegaram a 38.986 em 2025, alta de 14,6% em relacao ao ano anterior e de 106,1% na comparacao com 2021. Mais da metade das vitimas tinha entre 0 e 9 anos. Os registros de abandono de incapaz somaram 14.815, crescimento de 18,5%. Para o pesquisador, os dados refletem a permanencia de uma cultura que usa a violencia fisica como forma de disciplina, apesar dos avancos trazidos pelo Estatuto da Crianca e do Adolescente.
Como a reportagem parte de fonte unica, o texto adota o enquadramento do estudo e do pesquisador, com enfase na dimensao de genero e na regulacao das plataformas, sem contraponto de outras vertentes. O que ainda nao se sabe e como as autoridades de seguranca publica respondem a esses numeros, quais mecanismos regulatorios especificos estao em discussao para as plataformas digitais e que medidas de persecucao penal acompanham o crescimento dos registros. Tambem nao ha, na cobertura, dados sobre efetividade da aplicacao do Estatuto da Crianca e do Adolescente diante do avanco dos crimes.