Uma assessora de 35 anos que aparece com frequência a poucos metros de Donald Trump virou assunto político em Washington depois que o senador democrata Jon Ossoff, da Geórgia, citou seu nome em um comício no domingo. Natalie Harp ocupa formalmente o cargo de assessora executiva do presidente dos Estados Unidos, uma função de escalão inferior ligada a logística, agenda e fluxo de comunicações, mas é descrita por repórteres que cobrem a Casa Branca como a auxiliar com acesso mais constante ao republicano, presente no Escritório Oval e a bordo do Air Force One em viagens domésticas e internacionais.
Ossoff afirmou que Trump viajou com Natalie no que chamou de palácio voador aparentemente desprotegido, ofertado pelo emir do Catar, em referência ao novo avião presidencial e a relatos de que a assessora estava a bordo quando o presidente trocou de aeronave de forma sigilosa ao deixar a Turquia no mês passado. A Casa Branca reagiu com dureza quando a jornalista Kristen Holmes questionou o presidente sobre a declaração: classificou a pergunta como golpe baixo, atacou nominalmente a repórter em publicações oficiais e definiu Harp como colaboradora reconhecida e de confiança.
Os relatos convergem em quase todo o restante. Harp nasceu na Califórnia, vem de uma família conservadora e ganhou projeção no movimento MAGA depois de contar, na Convenção Nacional Republicana de 2020, que sobreviveu a um câncer nos ossos por meio de tratamento experimental viabilizado pela Lei Direito de Tentar, sancionada no primeiro mandato de Trump. Em seguida apresentou um programa na emissora conservadora One America News e depois voltou à campanha presidencial do republicano. Hoje é apontada como responsável por digitar publicações na conta do presidente na rede Truth Social e por carregar uma impressora portátil para entregar a ele cópias em papel de notícias e postagens, hábito que lhe rendeu entre jornalistas o apelido de impressora humana. Seu irmão, Preston Harp, disse em entrevista à televisão americana que ela é a maior fã do presidente e que a entrada na Casa Branca realizou um sonho antigo.
A divergência está no enquadramento. A cobertura de centro deu peso ao alcance informal desse poder: descreveu que a assessora detém capacidade fora do comum de controlar quais informações chegam ao presidente, resgatou o período em que ela promoveu afirmações falsas sobre a eleição americana de 2020 na emissora conservadora e reproduziu caracterizações feitas por jornalistas que acompanham o governo, entre elas a de cobertor de conforto. Veículos de direita organizaram os mesmos fatos em torno da defesa oficial: destacaram a declaração do porta-voz Davis Ingle, que chamou Harp de uma das assessoras mais leais e dedicadas da equipe e criticou o que considerou informação incorreta da imprensa, trataram a menção do senador como quebra da discrição de uma funcionária e deixaram de fora o histórico eleitoral dela na televisão. Veículos de esquerda não cobriram o episódio neste conjunto de fontes; a leitura predominante desse campo enfatiza o problema institucional, isto é, uma funcionária sem cargo de decisão, sem sabatina e sem escrutínio público filtrando o fluxo de informação para um chefe de Estado e trocando mensagens com líderes estrangeiros em nome dele.
Vários pontos seguem sem resposta. Não há confirmação oficial de que Harp estava no avião usado por Trump para deixar a Turquia, nem detalhamento do nível de credenciamento de segurança que ela possui para acompanhar deslocamentos sigilosos. Também não se sabe o teor das mensagens que teria trocado com líderes estrangeiros em nome do presidente, e a própria assessora não se manifestou publicamente sobre as caracterizações feitas a seu respeito. Boa parte do que se conhece da relação entre os dois vem de fontes anônimas citadas em livros e reportagens, e Trump raramente comenta o assunto diante das câmeras.