O Mercosul anunciou oficialmente, na cúpula de líderes realizada nesta semana no Paraguai, o início das negociações para uma parceria econômica com o Japão. O anúncio, feito na terça-feira, foi apresentado pelo bloco como o principal passo de uma nova estratégia de aproximação com o mercado asiático, logo após a entrada em vigor do acordo com a União Europeia, em maio.
A cobertura de centro relatou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da reunião ao lado de outros líderes sul-americanos e afirmou que o próximo objetivo é buscar um acordo semelhante com a China e seguir se aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta. O anfitrião da cúpula, o presidente paraguaio Santiago Peña, classificou a possível parceria com o Japão como um passo histórico que abre as portas para uma das economias mais fortes do mundo. Segundo a síntese oficial divulgada pelo bloco, Japão e Mercosul pretendem cooperar em segurança econômica e alimentar, na diversificação das cadeias de suprimento de setores estratégicos como minerais críticos, energia, tecnologia e agronegócio, e no reforço de uma ordem internacional baseada em regras.
Há convergência entre os diferentes veículos sobre o pano de fundo do movimento: a instabilidade no comércio global e, sobretudo, as tarifas impostas pelos Estados Unidos. A ameaça mais recente ocorreu no início do mês, quando o governo de Donald Trump propôs um novo tarifaço de 25% sobre bens importados do Brasil, após uma investigação concluir que o país praticaria práticas comerciais consideradas injustas por Washington. Todos os lados reconhecem que a diversificação de parceiros comerciais é uma resposta direta a esse cenário de imprevisibilidade.
As divergências ficam no enquadramento. Veículos de esquerda tendem a destacar a diversificação como afirmação da soberania da política externa brasileira e como aposta numa ordem multilateral que não dependa de um único polo de poder, valorizando o protagonismo do Estado na articulação do bloco. Veículos de direita enfatizam a oportunidade de mercado para os exportadores brasileiros, em especial o agronegócio, e leem a abertura como ganho de competitividade e livre iniciativa, ainda que cobrem pragmatismo diante das tarifas americanas.
Os veículos também detalharam que a agenda do Mercosul vai além do Japão. O bloco se prepara para a primeira rodada de um acordo de preferências tarifárias com o Vietnã, tenta aprofundar a parceria com a Índia e tem um tratado de livre comércio em fase final com os Emirados Árabes Unidos. Recentemente entrou em vigor o acordo com Singapura, e há expectativa de retomada das conversas com a Coreia do Sul, paralisadas havia cinco anos. Fora da Ásia, Reino Unido e Canadá manifestaram interesse em firmar parcerias comerciais com o bloco.
O que ainda não se sabe é o cronograma concreto dessas negociações e o conteúdo detalhado do acordo com o Japão. A própria cobertura ressalva que a entrada em vigor de tratados desse tipo pode levar anos: o acordo com a União Europeia, por exemplo, levou 26 anos para ser fechado. Não há, até aqui, detalhamento sobre tarifas específicas, setores contemplados ou o impacto sobre a indústria nacional.