O Banco do Brasil informou que tem até R$ 100 bilhões em crédito ao agronegócio passíveis de enquadramento nas novas linhas de renegociação criadas pela Medida Provisória 1.376/2026, norma que prevê um fundo garantidor da União para cobrir produtores atingidos por eventos climáticos adversos. Do montante, R$ 36,7 bilhões correspondem a operações já inadimplentes e R$ 63,5 bilhões a contratos adimplentes que foram prorrogados ou renegociados. A estimativa foi apresentada pela presidente do banco, Tarciana Medeiros, ao comentar o balanço do segundo trimestre de 2026, e alcança até 113 mil clientes.
O balanço enviado ao mercado mostrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no trimestre, alta de 3,3% na comparação anual e de 13,9% sobre os três primeiros meses do ano. No acumulado do semestre, porém, o lucro somou R$ 7,3 bilhões, queda de 34,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. A inadimplência da carteira consolidada chegou a 5,61%, contra 3,96% doze meses antes. No agronegócio, o índice ficou em 6,27%, alta de 3,11 pontos percentuais no ano, com desaceleração no trimestre e queda dos novos atrasos de 1,77% para 1,37%. Entre pessoas físicas, a inadimplência subiu para 8,41%. As despesas com provisões para devedores duvidosos avançaram 16,1%, para R$ 18,4 bilhões, enquanto a carteira total cresceu 1,4%, até R$ 1,31 trilhão.
Há convergência entre as coberturas sobre o diagnóstico. A crise do crédito rural, iniciada com as quebras de safra a partir de 2024 e agravada pela estiagem ligada ao El Niño, segue como o principal fator de pressão sobre o resultado do banco. Também não há divergência sobre os números: lucro trimestral em recuperação, lucro semestral em forte queda e provisões crescendo em ritmo muito superior ao da carteira.
A cobertura de centro detalhou a mecânica do socorro. Descreveu a composição da carteira potencialmente enquadrável, informou que a portaria de regulamentação deve ser publicada nos próximos dias e registrou que outra medida provisória, a 1.314, apelidada de BB Regulariza Agro, já concentrou R$ 39,341 bilhões em empréstimos renegociados. Nessa leitura, entraram também os dados de execução: R$ 15,5 bilhões judicializados só em 2026, volume que supera todo o ano de 2025, e a retomada iniciada de mais de 130 imóveis rurais, com a informação do banco de que a maior parte dos clientes em dificuldade é de arrendatários e de que a propriedade retomada volta a produzir na safra seguinte.
Veículos de direita enfatizaram o balanço pela ótica do acionista e da disciplina de capital. O ponto central dessa cobertura é que o retorno sobre o patrimônio líquido ficou em 8,3% ao fim de junho, ainda muito abaixo do custo de capital estimado em cerca de 14% ao ano, o que significa remuneração inferior à exigida por quem investe na instituição. Esse enquadramento também cobrou o descumprimento do guidance: a carteira de pessoa física cresceu 4,4% contra projeção de 6% a 10%, a de empresas recuou 6,4% contra previsão de variação entre mais 1% e menos 3%, e a do agronegócio avançou 4,1% quando o próprio banco projetava estabilidade, justamente no segmento que concentra a deterioração do crédito.
Veículos de esquerda não haviam registrado o caso até o fechamento desta análise. O ângulo que costuma organizar essa leitura é o do custo público do socorro e de quem paga a conta: o fundo garantidor da União mobiliza recursos do contribuinte para absorver perdas de um setor privado, sem que estejam públicos os critérios de acesso, a distribuição do benefício entre grandes e pequenos devedores ou eventuais contrapartidas ambientais e de adaptação climática. Pelo mesmo ângulo, a judicialização bilionária e a retomada de imóveis recaem sobre arrendatários, os elos mais frágeis da cadeia.
O que ainda não se sabe é relevante. Não foi divulgado o custo fiscal estimado do fundo garantidor da União, nem os critérios definitivos de enquadramento, que dependem de uma portaria ainda não publicada. Não há informação sobre quantos dos R$ 100 bilhões efetivamente entrarão no programa, sobre o perfil dos 113 mil clientes elegíveis ou sobre o prazo e as taxas das novas condições. Também segue em aberto o efeito de um novo ciclo climático sobre a safra e sobre a capacidade de pagamento dos produtores, além de qual será a trajetória do retorno do banco depois das renegociações.