O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), abriu a campanha à reeleição em Osasco no domingo, 16 de agosto, e usou o primeiro dia de campanha oficial para rejeitar a denúncia de que policiais militares perseguiram o motorista de seu principal adversário, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT). Segundo o governador, o cruzamento dos dados de GPS das viaturas com imagens de mais de 70 câmeras de segurança indica que não houve perseguição nem abordagem. “Tudo está mostrando que não houve absolutamente nada e que se trata, no final das contas, de uma falsa comunicação”, afirmou.
O episódio começou na noite de 11 de agosto. Depois de deixar Fernando Haddad em casa, na zona sul da capital paulista, o motorista relatou que uma viatura da Polícia Militar emparelhou com o carro que ele dirigia, um Ford Fusion, jogou luz alta sobre o veículo e o acompanhou por alguns quilômetros até um hotel na Rua Joinville. Ainda segundo o relato, os policiais não desceram da viatura, não pediram documentos e responderam “vaza daqui” quando questionados, com três fuzis à vista dentro do carro. Haddad tornou o caso público, disse que o funcionário ficou abalado, procurou o secretário de Segurança Pública e afirmou que não queria dramatizar o assunto, apenas entender o que havia acontecido.
A Polícia Militar informou ter feito uma análise preliminar de cerca de 40 câmeras privadas ao longo do trajeto indicado pelo motorista, sem identificar indício de abordagem ou procedimento irregular, e disse ter confirmado o percurso das viaturas pelo sistema de geolocalização. Tarcísio de Freitas afirmou depois que a apuração chegou a mais de 70 câmeras e que o caso passou às mãos da Polícia Civil, que abriu inquérito. O motorista será intimado a depor. A falsa comunicação de crime é tipificada no Código Penal e prevê pena de um a seis meses de detenção ou multa.
A cobertura de centro relatou o episódio mantendo as duas versões lado a lado: reproduziu as declarações do governador na íntegra, mas também o relato do motorista, a cobrança de Haddad por explicações e a informação, dada pela própria corporação, de que a apuração seguia em curso. Essa cobertura ainda situou a fala no contexto do ato de lançamento, que teve protesto na porta do ginásio, plateia com espaços vazios, discursos de aliados chamando o adversário de mentiroso e uma estratégia declarada de recuperar votos femininos depois de uma queda de dez pontos na aprovação entre mulheres registrada por pesquisa de julho.
Veículos de direita enfatizaram o material de imagem que enfraquece o relato do motorista. Divulgaram gravações em que o Ford Fusion aparece sozinho em trechos do caminho, sem viatura em sua cola, e apontaram que o carro estacionou em frente ao hotel às 21h58 enquanto a viatura passou pelo local apenas às 22h24, mais de 25 minutos depois. Nessa leitura, o caso deixa de ser denúncia de intimidação e vira suspeita de comunicação falsa de crime na largada da campanha. Um desses veículos chegou a publicar o nome do motorista, cidadão privado sem cargo público, e a descrevê-lo pelo vínculo partidário do empregador.
Nenhum veículo de esquerda produziu cobertura própria deste momento do caso no material reunido, o que deixa um ponto cego evidente na comparação. A leitura provável desse lado, a partir dos mesmos fatos, seria a de assimetria de poder: um trabalhador relatou ter sido seguido por policiais armados, disse ter sentido medo e agora é quem corre risco penal, enquanto a verificação das imagens e do GPS foi conduzida pela própria corporação questionada e o resultado foi anunciado pelo governador candidato, em palanque, contra o adversário direto.
O que ainda não se sabe é o que ocorreu nos minutos em que a viatura emparelhou com o carro e reduziu a velocidade quase até parar. As imagens divulgadas não permitem ver se o vidro do passageiro estava aberto, se houve sinalização dos policiais ou qualquer diálogo com o motorista. Também não há conclusão do inquérito da Polícia Civil, não foi divulgada a data do depoimento do motorista e a apuração interna da Polícia Militar, segundo a própria corporação, continuava aberta.