A senadora Simone Tebet, candidata do PSB ao Senado por São Paulo, afirmou que o negacionismo científico está no que chamou de DNA da família Bolsonaro ao criticar declarações antivacina do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. A fala foi dada no domingo, 9 de agosto de 2026, às margens do primeiro debate entre os candidatos ao governo paulista, que reuniu o governador Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição, e o ex-ministro Fernando Haddad. Tebet participou do evento como convidada, ao lado da colega de chapa Marina Silva.
O episódio começou no sábado anterior, quando Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo em seu perfil numa rede social. Nele, defendeu o que chamou de respeito à liberdade dos pais nos Estados Unidos, atacou o que classificou como obrigatoriedade vacinal imposta no Brasil pelo governo federal e questionou quem seria responsabilizado em caso de efeito colateral. A repercussão ocorreu enquanto São Paulo enfrenta o retorno do sarampo, doença que estava erradicada na maior parte dos estados brasileiros. São 23 casos confirmados em 2026, concentrados nas cidades de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, e o Ministério da Saúde recomendou dose de reforço para todas as pessoas entre 6 meses e 59 anos nesses três municípios.
A cobertura de centro relatou o encadeamento dos fatos com atribuição direta das falas e registrou um ponto que atravessa os campos políticos: o governador, adversário da senadora na disputa estadual, também rebateu o ex-deputado antes do início do debate. Ele afirmou que a vacina do sarampo é consagrada e segura, disse que o estado tem feito esforço para ampliar a cobertura vacinal por meio de incentivo à gestão municipal e recomendou que todos procurem o posto de vacinação. Nessa camada factual, portanto, não há disputa: as duas candidaturas ao governo paulista presentes no evento defenderam a imunização.
A divergência aparece no significado atribuído ao episódio. Veículos de esquerda destacaram um quadro mais amplo, o de que a mídia sintética instaurou um estado persistente de dúvida, em que a incerteza deixa de ser exceção para virar regra e evidências reais passam a ser descartadas como falsas, associando esse ambiente ao uso de imagem por sistemas de inteligência artificial ligado ao campo bolsonarista. Sob essa leitura, a recusa da vacina, o questionamento das urnas e a produção industrial de dúvida integram um mesmo método de desgaste institucional, que foi exatamente o argumento usado pela senadora ao citar sua participação na CPI da Covid.
Veículos de direita não produziram cobertura própria do episódio no conjunto analisado, e o argumento associado a esse campo aparece apenas de forma indireta, reproduzido pela cobertura de centro na íntegra do que foi dito no vídeo: autonomia dos pais para decidir sobre a vacinação dos filhos, crítica à obrigatoriedade e cobrança sobre quem responde por eventuais efeitos adversos. A ausência de cobertura própria significa que não há, no material disponível, defesa argumentada dessa posição nem contestação dela por dentro do mesmo campo.
O que ainda não se sabe é relevante. Não há registro de resposta do ex-deputado às críticas recebidas no debate. A alegação de que existiria obrigatoriedade vacinal imposta pelo governo federal circula sem checagem sobre qual norma estaria em vigor. Também não foram divulgados a cobertura vacinal atual contra o sarampo nos municípios afetados, o perfil etário dos casos confirmados nem qualquer avaliação sanitária sobre a evolução esperada do surto nas próximas semanas.