O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a colocar a eleicao presidencial brasileira de 2026 no centro do tabuleiro geopolitico. Ele compartilhou nas redes sociais um artigo de opiniao do colunista John Gizzi, do veiculo conservador pro-Trump Newsmax, intitulado 'Trump conquista oito vitorias em sete anos na America Latina'. O texto descreve a eleicao do Brasil, marcada para outubro, como o 'proximo grande teste' da estrategia de Washington para manter sua proeminencia na regiao, conforme a Estrategia de Seguranca Nacional dos EUA.
O artigo lista uma sequencia de vitorias da direita na America Latina. Cita a recente eleicao do conservador Abelardo de la Espriella na Colombia, que sucedera Gustavo Petro, alem de pleitos no Peru, em Honduras, na Bolivia e no Chile, e exemplos mais antigos como El Salvador, Argentina e Equador. Segundo o colunista, esse 'amplo realinhamento ideologico pro-Trump' esta transformando o Hemisferio Ocidental. O texto aponta ainda quatro desafios restantes para a Casa Branca: Venezuela, Cuba, Nicaragua e o proprio Brasil. A publicacao lembra que apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro se mobilizam em torno do senador Flavio Bolsonaro, pre-candidato a Presidencia, contra a reeleicao de Luiz Inacio Lula da Silva.
Veiculos de direita reproduziram a tese com destaque, enfatizando o 'realinhamento conservador' da regiao e a uniao da oposicao em torno de Flavio Bolsonaro como alternativa a um governo de esquerda que acumulou atritos com Washington. A cobertura de centro relatou o episodio com paridade entre os lados, recuperando a cronologia diplomatica: apos o tarifaco imposto a produtos brasileiros no ano passado, o governo Lula buscou aproximacao com a Casa Branca, o que chegou a render elogios de Trump. O cenario mudou apos a visita dos irmaos Flavio e Eduardo Bolsonaro a Washington, seguida pela designacao do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como organizacoes terroristas. Em encontro do G7, Trump classificou o Brasil como pais 'politicamente dificil' e chamou Lula de 'muito volatil'. Veiculos de esquerda, por meio da cobertura de agencia publica, enquadraram o movimento como expressao da Doutrina Monroe atualizada por um 'Corolario Trump', criticando a ambicao dos EUA de expandir o controle e expulsar empresas estrangeiras da regiao, e marcando como 'extrema-direita' o candidato vitorioso na Colombia.
O ponto de maior divergencia esta no significado do gesto. Para a direita, trata-se do reconhecimento do peso geopolitico do Brasil e de uma oportunidade de aproximacao estrategica. Para a esquerda, e uma tentativa de interferencia externa na soberania eleitoral brasileira. Lula reagiu publicamente, afirmando que Trump tem direito a suas preferencias, mas pedindo que ele 'nao se meta' nas eleicoes do Brasil e respeite a soberania nacional. Um ponto de convergencia aparece nos dados: levantamento do Datafolha indica que 65% dos eleitores se declaram indiferentes a um eventual endosso de Trump, enquanto 17% ficariam mais propensos e 15% menos propensos a votar em um candidato apoiado por ele. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre 17 e 18 de junho, com margem de erro de dois pontos.
O que ainda nao se sabe e se o gesto de Trump tera efeito pratico sobre a corrida de 2026, se a Casa Branca adotara medidas concretas de apoio a candidatura bolsonarista e como evoluira a relacao diplomatica entre Brasil e Estados Unidos ate o pleito de outubro.