O advogado Abelardo de la Espriella foi eleito presidente da Colômbia ao derrotar o senador de esquerda Iván Cepeda por uma das margens mais apertadas da história recente do país. Com 99,9% das urnas apuradas, De la Espriella obteve cerca de 49,65% dos votos, contra 48,7% de Cepeda, candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro. A diferença entre os dois ficou abaixo de 300 mil votos. O resultado encerra quatro anos do primeiro governo de esquerda da Colômbia e confirmou a tendência apontada pelas pesquisas de intenção de voto.
A cobertura de centro relatou que a apuração consolidou uma guinada política após o mandato de Petro, que, sem direito a reeleição, evitou reconhecer o resultado. Em publicação nas redes sociais, o presidente afirmou que ainda haveria irregularidades e que o vencedor só poderia ser definido após a conclusão do escrutínio oficial. Veículos de centro também destacaram que a Colômbia tem tradição de eleições presidenciais decididas por margens estreitas: desde que a Constituição de 1991 instituiu o segundo turno, a maioria das disputas terminou com diferença inferior a um milhão de votos, sendo a de 1994 a mais apertada de todas.
Há pontos em que toda a cobertura converge. De la Espriella era, até poucos meses atrás, uma figura pouco conhecida fora dos círculos empresariais e jurídicos, construiu uma candidatura populista financiada com recursos próprios e forte presença nas redes sociais, e teve, na reta final, o apoio declarado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Todos os relatos registram ainda que a campanha colombiana foi marcada por violência, incluindo o assassinato de um candidato presidencial, e que a vitória alinha a Colômbia a outros países latino-americanos com governos de direita, como Argentina, El Salvador e Equador.
É no enquadramento que os lados divergem. Veículos de direita enfatizaram o discurso de mão dura do vencedor, que chamou a esquerda de 'câncer' e prometeu uma ofensiva de 90 dias contra as guerrilhas e o narcotráfico no maior produtor de cocaína do mundo, com defesa do porte de armas, construção de megapresídios, exploração de petróleo por fracking, redução de 40% do Estado e até dolarização da economia. Nesse enquadramento, o resultado expressa o cansaço do eleitorado com a política de 'Paz Total' do governo Petro, considerada pouco efetiva.
Veículos de esquerda, por sua vez, ressaltaram que o governo de Petro reduziu a pobreza, elevou o salário mínimo e diminuiu o desemprego em um dos países mais desiguais do mundo, e que Cepeda, filho de um senador de esquerda assassinado em 1994, foi defensor das vítimas do conflito armado. Nessa leitura, a agenda de De la Espriella desperta temores de autoritarismo e de retrocesso social, reforçados pelas críticas a seus comentários machistas e homofóbicos e à sua atuação como advogado de paramilitares e narcotraficantes. A vitória da direita também é lida como enfraquecimento do bloco de governos progressistas da região, que inclui Brasil e México.
O que ainda não se sabe é como o novo governo conduzirá, na prática, a relação com os Estados Unidos e com os grupos armados, nem se a recusa de Petro em reconhecer a contagem terá desdobramentos institucionais após o fim do escrutínio oficial. As propostas econômicas mais radicais, como a dolarização e o corte do Estado, também carecem de detalhamento sobre prazo e viabilidade.