A escolha do senador Eduardo Girão (Novo-CE) para disputar a vice-presidência na chapa de Romeu Zema mudou o tabuleiro da eleição ao governo do Ceará. Ao aceitar o convite do partido, Girão deixou a corrida estadual, na qual vinha se apresentando como representante legítimo do campo da direita, e abriu espaço para o ex-ministro Ciro Gomes, hoje o principal adversário do governador Elmano de Freitas na disputa pelo Palácio da Abolição.
A cobertura de centro relatou os números que sustentam essa leitura. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 30 de julho apontava Ciro Gomes com 43% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% do governador, 3% de Girão e 1% de Jarir Pereira. Na simulação de segundo turno, o placar era de 48% a 35% para o ex-ministro. Com a saída do senador, a aposta de sua campanha é de que esses eleitores migrem e permitam decidir a eleição já no primeiro turno. A mesma cobertura registrou o contraponto: aliados do governador afirmam que os três pontos percentuais não migram integralmente e não têm potencial para alterar o cenário.
Veículos de direita enfatizaram o outro lado da equação, a unificação do campo conservador em torno de um candidato com trajetória na esquerda. Destacaram que o PL cearense, presidido pelo deputado federal André Fernandes, já havia declarado apoio a Ciro com o argumento de que toda ajuda é bem-vinda para superar a atual gestão estadual, e que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que apoiava o senador, resiste ao arranjo e não deve declarar apoio ao tucano mesmo após a desistência. Nesse enquadramento, Girão era o obstáculo à unidade da oposição no estado, e a eleição tende a se tornar plebiscitária, organizada em torno da permanência ou não do PT no governo.
Até o momento, veículos de esquerda não publicaram cobertura própria do episódio. A leitura do campo governista aparece apenas de forma indireta, pela fala de aliados do governador reproduzida na cobertura de centro, que trata o movimento como rearranjo de cúpula partidária, decidido entre direções nacionais, sem efeito decisivo sobre o eleitorado.
O gesto público do ex-ministro reforçou a costura. Ele cumprimentou o senador pelo convite para a chapa nacional e afirmou ser raro que cearenses alcancem oportunidades na disputa política do país. Um veículo tratou o gesto como comemoração; o texto reproduzido, porém, é um cumprimento protocolar publicado em rede social. Há convergência entre as coberturas em um ponto: sem o senador na disputa estadual, o confronto se simplifica em dois nomes.
O que ainda não se sabe é para onde vão de fato os eleitores que declaravam voto no senador, se a ex-primeira-dama manterá a recusa em apoiar o candidato apoiado pelo PL e qual será o desfecho da ação movida por União e PP na Justiça contra o apoio da federação ao tucano no estado. Também não há informação sobre quem o partido lançará no lugar do senador ao governo do Ceará, nem sobre a margem de erro e o período de campo do levantamento citado pelas reportagens.