O senador Carlos Viana, que presidiu a CPMI do INSS, acionou o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para pedir a preservação integral das provas digitais e o aprofundamento do inquérito que apura suposto tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O requerimento, apresentado em 20 de agosto de 2026, complementa uma representação criminal entregue dois dias antes e pede a guarda de arquivos originais, imagens forenses, metadados, backups e registros de cadeia de custódia, além da apuração de fluxos financeiros e de pagamentos a empresas de consultoria cujos beneficiários finais poderiam ser diferentes dos registrados formalmente.
O pedido cai sobre uma questão processual já aberta. A Procuradoria-Geral da República havia solicitado a André Mendonça o envio do caso à primeira instância, por avaliar que, até agora, nenhuma autoridade com prerrogativa de foro é alvo direto da investigação. O senador não pede que a apuração fique artificialmente no Supremo Tribunal Federal, segundo o próprio texto do requerimento, mas que se esclareça antes se as provas já reunidas contêm referências a autoridades com foro privilegiado, para evitar o que chama de fragmentação prematura da investigação.
A cobertura de centro relatou o conteúdo do requerimento e o desenho institucional do caso: Fábio Luís Lula da Silva é alvo de três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal a partir de julho de 2026, dois sob relatoria de André Mendonça e um sob relatoria de Flávio Dino, e as apurações miram supostos favorecimentos de empresas junto a órgãos federais como o Ministério da Saúde, a Dataprev e a Telebras. O terceiro inquérito, sob sigilo, alcança o Palácio do Planalto ao investigar a relação entre a lobista Roberta Luchsinger, Fábio Luís Lula da Silva e o então chefe de gabinete da Presidência da República, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que deixou o cargo em julho.
Veículos de direita enfatizaram o material que descreve o suposto esquema. Roberta Luchsinger teria feito ao menos 40 visitas a ministérios e à Presidência da República entre 2023 e 2024, com apenas uma registrada nas agendas públicas, apesar da exigência legal de registro. Em conversas analisadas pela Polícia Federal, ela teria dito atuar em nome do filho do presidente, usando a expressão Eu sou o Fábio, e buscaria 20% de remuneração caso avançasse um projeto de medicamentos à base de canabidiol junto ao Ministério da Saúde. O negócio não foi concluído. Também aparecem pagamentos e joias que chegariam a R$ 249 mil em benefício de Marco Aurélio Santana Ribeiro, que afirmou ter devolvido os valores. Nas mesmas mensagens, a lobista teria dito que o advogado Otto Medeiros seria sócio do ministro Kassio Nunes Marques, que negou qualquer sociedade em nota e se declarou impedido de atuar em processos nos quais o advogado participe.
Veículos de esquerda não publicaram cobertura própria do episódio até o momento, e o ângulo que costuma aparecer nesse campo é o do devido processo: a Procuradoria-Geral da República, titular da ação penal, não vê foro a preservar, o investigado não é agente público nem foi denunciado, e o conteúdo que alimenta a repercussão vem de inquérito sigiloso. Nessa leitura, amizade e presença em agendas ministeriais não equivalem a tráfico de influência, e a iniciativa de um senador de oposição dentro do processo mistura apuração criminal com disputa política.
As defesas de Roberta Luchsinger e de Fábio Luís Lula da Silva negam irregularidades. Em publicação em rede social, a lobista disse sofrer com as acusações e criticou o que classificou como narrativas que desconsideram os fatos, afirmando que relações de amizade não deveriam servir de fundamento para suspeitas.
Ainda não se sabe quando André Mendonça decidirá sobre a competência nem se acolherá o pedido de preservação das provas. Também não está esclarecido se as mensagens recuperadas pela Polícia Federal citam autoridades com foro privilegiado, qual a extensão do suposto núcleo descrito no relatório atribuído à corporação e se haverá denúncia formal contra qualquer dos citados.