O ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho voltou ao centro de uma crise política ao gravar, nesta quinta-feira, um vídeo para esclarecer que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não aparece nas imagens que ele diz possuir de uma festa atribuída ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O evento, apelidado de "noite das astronautas", teria reunido autoridades dos três Poderes em uma festa com homens e mulheres nus. Segundo Garotinho, a gravação de doze minutos está guardada sob segredo de Justiça, na chamada sala cofre do Supremo Tribunal Federal, sob a relatoria do ministro André Mendonça.
A cobertura de centro relatou que o episódio ganhou força na segunda-feira, quando a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro repostou em suas redes um vídeo antigo de Garotinho comentando o evento, gesto interpretado por aliados como uma provocação ao enteado. O senador já vinha sob pressão por ter pedido dinheiro a Vorcaro para financiar o filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Garotinho afirmou que suas falas foram distorcidas e que gravou o novo vídeo para não ser usado por ninguém, recusando-se a entrar na disputa familiar entre Michelle e Flávio.
Veículos de esquerda destacaram outro ângulo do relato: o de que Garotinho teria recebido, logo cedo, uma ligação de Brasília, de um número com DDD 61, feita por uma "figura importante" descrita como apavorada com a possibilidade de o vídeo ser divulgado. Para essa cobertura, o episódio expõe o contraste entre o discurso de "defesa da família" e a presença, na festa, de senadores, deputados, governadores e secretários que adotam publicamente um tom moralista. Perfis de redes sociais reproduzidos por essa cobertura trataram o caso como sinal de nervosismo do campo bolsonarista.
Veículos de direita, por sua vez, enfatizaram que o próprio Garotinho desmentiu a insinuação central contra Flávio: o ex-governador afirmou textualmente que o senador não está nas gravações que possui e que nunca disse o contrário. Nessa leitura, trata-se de uma tentativa de instrumentalizar declarações vagas para atingir um pré-candidato à Presidência, sem qualquer prova pública, aproveitando a briga reacendida entre Michelle e Flávio.
O que os três lados convergem é no núcleo factual: Garotinho diz ter um vídeo, nega a presença de Flávio nele, afirma que o material está sob segredo de Justiça no STF e que autoridades de Brasília teriam participado da festa. Também é ponto comum o pano de fundo do escândalo do Banco Master, que colocou o nome de Vorcaro no noticiário político.
O que ainda não se sabe é decisivo. Nenhum nome das autoridades supostamente filmadas foi apresentado publicamente, o conteúdo bruto permanece protegido pela Justiça e não há confirmação independente de que as imagens existam ou do que mostram. Também não há manifestação direta de Flávio Bolsonaro nem de Daniel Vorcaro sobre as declarações mais recentes de Garotinho, o que mantém o caso no terreno das versões, à espera de eventual apuração formal.