O candidato do partido Novo à Presidência da República, Romeu Zema, afirmou em 25 de agosto de 2026 que o Supremo Tribunal Federal se tornou, para alguns ministros, um “balcão de negócios”. A frase foi dita em sabatina promovida por veículos de imprensa e veio depois de o ex-governador de Minas Gerais ser questionado sobre declaração anterior, em que dissera existir “pelo menos três frutas podres” na Corte. “Temos que lembrar que tem joio e trigo no Supremo. Tem gente lá em quem acho que a maioria dos brasileiros confia e tem gente que tem usado o Supremo para fazer negócios”, declarou. Ele se recusou a citar nomes, sob o argumento de que “todo brasileiro sabe o que acontece” no tribunal.
As alusões do candidato foram decodificadas na cobertura. O contrato mencionado é a prestação de serviços de R$ 129 milhões, prevista para três anos, entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes. A “transação do Tayayá de R$ 39 milhões” remete a suspeitas sobre aportes no Tayayá Aqua Resort, empreendimento em Ribeirão Claro, no Paraná, em que o ministro Dias Toffoli e familiares têm participação. O congresso “com patrocínio de banqueiro bandido” é referência ao Fórum Jurídico de Lisboa, organizado por institutos ligados ao ministro Gilmar Mendes. E a “degustação do uísque mais caro do mundo” remete a um evento de abril de 2024, custeado pelo fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, que reuniu cerca de 40 convidados, entre eles ministros do Supremo e autoridades do Judiciário e da Polícia Federal. Para Zema, em “qualquer país civilizado” esses ministros já teriam sido afastados, e é a “permissividade” que permite a continuidade.
Na mesma sabatina, o candidato defendeu mudar a governança interna do Congresso Nacional. Ele questionou a prerrogativa dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal de barrar matérias mesmo quando há apoio majoritário: “Um presidente barrar algo que 60% dos senadores assinaram, estão endossando. Será que esse presidente está representando adequadamente os interesses, a vontade do povo, dos parlamentares?”. Zema disse que faria mudanças assim de forma gradual, caso eleito, e defendeu também uma reforma administrativa para reduzir o tamanho da máquina pública.
No capítulo econômico, o candidato detalhou e reduziu a promessa de “privatizar tudo” que vinha repetindo desde a pré-campanha. A Caixa Econômica Federal, a Embrapa e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ficariam de fora da venda. Entrariam o BNDES, o Banco do Brasil e a Petrobras, os dois últimos com a ideia de desmembramento prévio para viabilizar a operação, com um operador por região no caso da petroleira, modelo que ele considera hoje ineficiente.
A cobertura de centro tratou o episódio como registro de sabatina: reproduziu as falas entre aspas, separou o que é declaração do que é contexto apurado, informou que não há investigações oficiais sobre o Fórum Jurídico de Lisboa e registrou que Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes foram procurados e não responderam até a publicação. Veículos de direita deram peso maior à acusação, ligaram-na à frente central da campanha do candidato contra o Supremo, lembraram que o programa de governo de abril já propunha limitar decisões monocráticas e criar regras de impeachment de ministros, e ao mesmo tempo classificaram como recuo a ressalva sobre Caixa e Embrapa. Veículos de esquerda não haviam publicado sobre a sabatina no conjunto analisado, de modo que a leitura que costuma enfatizar a proteção do Judiciário diante de ataques políticos não aparece na cobertura disponível.
Ainda não se sabe quais são os três ministros que o candidato classificou como “frutas podres”, já que ele se recusou a nomeá-los, nem se algum deles pretende responder às declarações. Também não há detalhamento sobre como o desmembramento da Petrobras e do Banco do Brasil seria feito, em que prazo, sob qual base legal e com que efeito fiscal, nem sobre o desenho concreto da mudança de governança no Congresso Nacional.