A Agência Nacional do Cinema (Ancine) concedeu o Registro de Obra Estrangeira ao filme "Dark Horse", produção norte-americana que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O registro foi concedido em 7 de agosto, cerca de um mês e meio depois de a distribuidora Europa Filmes apresentar o pedido, em 22 de junho. O longa tem direção de Cyrus Nowrasteh, duração prevista de uma hora e quarenta minutos e traz o ator norte-americano Jim Caviezel no papel do ex-presidente. A própria agência cataloga a produção como obra de ficção.
O ponto em que as duas coberturas disponíveis convergem é o alcance limitado desse aval. O registro é exigência obrigatória para produções audiovisuais estrangeiras, mas não coloca o filme em cartaz. Para isso, a distribuidora precisa solicitar o Certificado de Registro de Título, documento que descreve o tipo de veiculação comercial e as plataformas de exibição. Só depois dessa homologação a obra pode ser submetida à classificação indicativa do Ministério da Justiça, última etapa antes da estreia comercial. Nenhuma dessas providências foi tomada até agora.
A cobertura de centro relatou que a Europa Filmes não fixou prazo para pedir o certificado e que os produtores trabalham com a expectativa de exibir a obra em novembro, depois do período eleitoral, quando a veiculação poderia ser considerada propaganda política irregular. Essa mesma cobertura reuniu as frentes de investigação que cercam a produção: o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, atendeu a pedido da Polícia Federal e autorizou o acesso aos dados da investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora do filme. A operação estadual, realizada em junho, mirou Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment no Brasil, sob suspeita de fraudes e desvios de recursos públicos. Em julho, o ministro André Mendonça já havia autorizado a Polícia Federal a investigar o financiamento da obra, e Dino liberou também a apuração sobre possível repasse de emendas parlamentares a empresas vinculadas à produtora.
Veículos de direita enfatizaram outro recorte: o trâmite regulatório e a demora até o registro sair. Nessa cobertura, o destaque fica para o fato de a Ancine ter encaminhado o pedido à área de fiscalização assim que o recebeu, porque já analisava uma denúncia de que as filmagens teriam ocorrido em território brasileiro sem a comunicação prévia exigida pela regulamentação. A Europa Filmes foi chamada a prestar esclarecimentos sobre as gravações. Esse mesmo enquadramento registra a fala do diretor da distribuidora, Wilson Feitosa, de que não há prazo para solicitar o certificado e que o pedido será feito "no momento certo". As investigações conduzidas pela Polícia Federal e as decisões do Supremo Tribunal Federal não aparecem nesse recorte, que trata a repercussão política do caso de forma genérica.
Não há, até o momento, cobertura de veículos de esquerda sobre a concessão do registro. O ângulo que costuma organizar a leitura desse campo já está contido nos fatos apurados pelas demais coberturas: a suspeita de uso de dinheiro público, por meio de emendas parlamentares, para financiar uma obra sobre um ex-presidente, e o cálculo de estrear o filme apenas quando o calendário eleitoral não puder mais enquadrá-lo como propaganda.
O que ainda não se sabe é quando a Europa Filmes vai pedir o Certificado de Registro de Título, se há data de estreia e qual classificação indicativa a obra receberá. Também segue em aberto o desfecho da apuração da Ancine sobre as filmagens sem comunicação prévia, procedimento separado do que resultou no registro, e o resultado das investigações federais sobre o financiamento da produção e sobre o eventual repasse de emendas. Produtora, distribuidora e investigados não se manifestaram publicamente sobre as suspeitas nas coberturas disponíveis.