O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone na segunda-feira, 24 de agosto, com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, e aceitou o convite para participar da COP31, a conferência do clima marcada para Antália, no sul do país, entre 9 e 20 de novembro. Além da agenda climática, a ligação tratou de comércio, investimentos e cooperação na indústria de defesa.
Os dois governos anunciaram três encaminhamentos concretos. O primeiro é a criação de um conselho estratégico, comandado pelos vice-presidentes dos dois países, encarregado de desenhar um roteiro para aprofundar as relações bilaterais. O segundo é o envio a Ancara de uma delegação brasileira chefiada pelos ministros da Defesa e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, para iniciar a implementação do Acordo de Cooperação em Indústria de Defesa, já ratificado pelos parlamentos das duas nações. O terceiro é a intenção declarada por Lula de ampliar os investimentos brasileiros na área de defesa e de estimular parcerias entre empresas brasileiras e turcas no setor. Segundo o relato dos dois governos, os presidentes ainda lamentaram a persistência de conflitos pelo mundo e defenderam a intensificação do diálogo como caminho para a paz na Ucrânia e no Oriente Médio.
A cobertura de centro relatou esses pontos e acrescentou dois elementos de contexto. O primeiro é de calendário: a COP31 acontece semanas depois do segundo turno das eleições brasileiras. O segundo é de repetição: será a terceira conferência do clima seguida com presença simultânea dos dois presidentes, depois da COP28, nos Emirados Árabes Unidos, e da COP29, no Azerbaijão. Essa cobertura também reproduziu a nota do governo turco em que Erdoğan sustenta que os dois países podem implementar um modelo de cooperação econômica capaz de ampliar a prosperidade de seus povos diante de tendências protecionistas, além do elogio do turco à política externa brasileira, que, segundo ele, prioriza a paz em assuntos regionais e globais.
Veículos de esquerda destacaram o eixo diplomático e acompanharam de perto o relato oficial da Presidência: o conselho estratégico, a ratificação do acordo de defesa pelos dois parlamentos e o apelo conjunto pelo diálogo na Ucrânia e no Oriente Médio. Nesse enquadramento, o telefonema aparece como sinal de protagonismo brasileiro em negociações multilaterais e de aproximação com parceiros fora do eixo tradicional, enquanto a presença confirmada na COP31 reforça a agenda climática como política de Estado.
Veículos de direita não trataram do episódio até o momento. O ângulo que costuma organizar essa cobertura é o do retorno concreto: quanto o acordo de defesa gera em contratos e empregos para a indústria brasileira, que contrapartidas comerciais o Brasil obtém da Turquia e se a agenda internacional do presidente se converte em resultado econômico mensurável, sobretudo quando o compromisso assumido cai logo depois do calendário eleitoral.
O que ainda não se sabe é o essencial da parte prática. Não foram divulgados o valor, o escopo nem os prazos da cooperação em indústria de defesa, tampouco quais empresas seriam contempladas. Também seguem em aberto a data da ida da comitiva a Ancara, a composição e o mandato do conselho estratégico de vice-presidentes e a agenda que o Brasil pretende defender em Antália. Não há, até agora, manifestação de parlamentares brasileiros ou de representantes do setor industrial sobre os compromissos anunciados.