O ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência da República Romeu Zema, do partido Novo, afirmou ter “uma série de programas contra as mulheres” durante sabatina transmitida ao vivo na noite de segunda-feira, 24 de agosto de 2026. A frase abriu a resposta a uma pergunta sobre o aumento do número de mulheres vítimas de feminicídio em Minas Gerais ao longo dos cinco anos de seu mandato e sobre qual compromisso ele assumiria, se eleito, no combate à violência de gênero. A troca da preposição “para” por “contra” inverteu o sentido literal da frase e passou a dominar a repercussão da noite.
Toda a cobertura converge sobre o que veio logo depois do lapso. Ainda na mesma resposta, o candidato detalhou quatro medidas: ampliar o número de delegacias especializadas no atendimento a mulheres, com equipes femininas capacitadas; criar casas de acolhimento para vítimas de violência doméstica, sob o argumento de que a mulher agredida precisa ter para onde ir e não pode ser obrigada a voltar ao ambiente do agressor; usar tornozeleiras eletrônicas em agressores, com alerta sonoro e acionamento automático da polícia caso o monitorado se aproxime a menos de 200 metros da vítima; e levar ações de conscientização sobre o tema às escolas. Os dois relatos disponíveis também registram que o trecho viralizou em minutos na rede social X, com usuários reagindo com surpresa e ironia, e reproduzem as mesmas manifestações de internautas.
O contexto institucional é o mesmo nas duas versões. A entrevista foi a primeira de uma sequência de sabatinas com candidatos à Presidência, gravadas no Rio de Janeiro e transmitidas ao vivo, conduzidas por dois jornalistas e organizadas em blocos sobre economia, saúde, educação e segurança pública. Depois de Romeu Zema, estavam previstos, nesta ordem, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o escritor Augusto Cury (Avante), até sábado.
A divergência está na hierarquia da informação. Veículos de esquerda trataram o episódio como possível revelação involuntária, com o rótulo de “sincericídio” no topo do texto, e organizaram a matéria em torno da viralização, deixando as propostas para o fim com a ressalva de que chegaram ao público já embaladas pela gafe. Nessa leitura, o erro é lido junto com o dado que motivou a pergunta: o aumento de feminicídios ocorreu sob a responsabilidade de quem governava o estado. A cobertura de centro qualificou o caso como gafe de comunicação, transcreveu a resposta na íntegra, listou as medidas com o mesmo peso do lapso e situou a entrevista no calendário eleitoral, sem atribuir intenção ao candidato. No recorte de cobertura disponível até o momento, veículos de direita não registraram o episódio, de modo que a leitura que separa o tropeço de linguagem do conteúdo das propostas não aparece de forma direta no conjunto de fontes.
Várias lacunas seguem abertas. Nenhuma das matérias apresenta os números do aumento de feminicídios em Minas Gerais que sustentam a premissa da pergunta, nem o período exato de comparação. Também não há registro de correção, nota ou pronunciamento posterior da campanha do candidato. As propostas foram apresentadas sem custo estimado, prazo de implantação ou indicação de como seriam financiadas e integradas às polícias estaduais, e nenhum especialista em segurança pública foi ouvido sobre a viabilidade do monitoramento eletrônico em escala nacional. Não há, até aqui, medição do efeito do episódio sobre a intenção de voto.